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Picada de cobra pode causar AVC? Estudo brasileiro explica

ResumoPicada de cobra pode causar AVC, conforme estudo brasileiro da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado. A revisão com 130 pacientes registrou mortalidade de 23,4% e sequelas neurológicas, mesmo com atendimento médico rápido. O risco exige vigilância clínica imediata após acidente ofídico.

Estudo de cientistas da UEA e da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado mostra que picadas de cobra podem provocar AVC, mesmo com atendimento rápido. Revisão com 130 pacientes aponta mortalidade de 23,4% e alerta para sequelas.

Sérgio Tadeu Mafra
Sérgio Tadeu Mafra Repórter de Economia Regional · 09 de setembro de 2026 · 3 min de leitura
Picada de cobra pode causar AVC? Estudo brasileiro explica

Uma investigação conduzida por cientistas da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado indica que picadas de cobra podem provocar acidente vascular cerebral (AVC), mesmo quando o atendimento é rápido. O trabalho, uma revisão com metanálise, reuniu dados de 130 pacientes que sofreram AVC após envenenamento ofídico e foi publicado na revista PLoS Neglected Tropical Diseases.

A resposta direta à pergunta que dá título a este texto é: o veneno de cobra pode desencadear tanto AVC isquêmico quanto hemorrágico, dependendo da espécie e da reação do organismo. Os casos analisados estavam concentrados principalmente na Índia (36,9%), no Brasil (13,9%) e no Sri Lanka (10,8%), além de registros em outros 19 países. A taxa de mortalidade chegou a 23,4%, e muitos sobreviventes apresentaram sequelas neurológicas. O AVC isquêmico foi mais frequente que o hemorrágico (61,5% contra 38,5%), o que mostra a complexidade do impacto do veneno no corpo.

O farmacêutico-bioquímico Wuelton Marcelo Monteiro, autor do estudo, afirma que, na Amazônia, a população é muito mais afetada por esse problema, seja em número de casos ou na gravidade e mortalidade. O acesso difícil a serviços de saúde, com longas distâncias e concentração do atendimento em áreas urbanas, contribui para o atraso no diagnóstico e no tratamento, deixando populações indígenas e ribeirinhas mais vulneráveis.

Um relatório da iniciativa global Strike Out Snakebite (SOS), divulgado em janeiro, aponta dificuldades no manejo clínico desses casos. Feito com profissionais de saúde de países como Brasil, Índia e Nigéria, o documento indica problemas na administração do soro antiofídico e no reconhecimento de complicações graves, muitas vezes agravados por longas distâncias e falta de estrutura. Em 2025, o Brasil registrou 28.626 acidentes envolvendo picadas de serpentes e 149 óbitos, cerca de uma morte a cada dois dias, segundo o Ministério da Saúde.

O neurologista João Brainer de Andrade, pesquisador do Einstein Hospital Israelita, explica que alguns venenos podem provocar um evento hemorrágico ao alterar a coagulação do sangue, reduzindo as plaquetas ou interferindo nos fatores de coagulação. Outros fazem o contrário: provocam inflamação no endotélio e formação de trombos, deixando o sangue mais propenso à coagulação. O resultado é que o paciente pode desenvolver tanto AVC isquêmico quanto hemorrágico, além de trombose ou hemorragias em outros órgãos, como coronárias, pulmões ou rins.

Os sinais de alerta são semelhantes aos de qualquer AVC: fraqueza súbita, dificuldade para falar, perda de visão ou alteração do nível de consciência. A diferença é que, nesses casos, eles aparecem no contexto de um envenenamento, muitas vezes em locais remotos e áreas rurais. Monteiro orienta que a identificação precoce de sinais como diminuição do nível de consciência, náuseas, vômitos ou déficits neurológicos deve motivar o encaminhamento rápido para centros com tomografia e suporte intensivo.

No Brasil, há mais de 400 espécies de serpentes, das quais cerca de 15% são peçonhentas. A maioria dos acidentes está relacionada a espécies do gênero Bothrops, as jararacas, responsáveis por cerca de 90% dos casos. O soro antiofídico continua sendo o principal tratamento, mas não elimina completamente o risco de AVC. João Brainer observa que não há como garantir que o soro vá evitar 100% dos casos, porque o paciente pode demorar a recebê-lo e o tempo em que o veneno fica circulando já pode ser suficiente para desencadear a cascata que leva ao evento.

A principal orientação é buscar atendimento imediatamente após qualquer picada de cobra. "Qualquer picada de cobra deve ser tratada como emergência médica. Não devemos esperar os sintomas aparecerem. Também não devemos fazer torniquetes, que podem piorar o quadro e levar à perda do membro afetado", orienta o médico do Einstein. Para os próximos meses, a tendência é que o tema ganhe mais atenção em políticas de saúde pública, especialmente nas regiões Norte e Centro-Oeste, onde o acesso a serviços estruturados ainda é um desafio.

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