Carro quitado como garantia: entenda o risco antes
Com 83,9 milhões de brasileiros endividados, cresce a procura por crédito com garantia de veículo. A taxa cai, mas o carro fica alienado até o fim do pagamento e o custo total pesa no bolso.
Quem tem um carro quitado na garagem e está com o nome sujo pode usar o veículo como garantia para conseguir empréstimo mais barato. É uma saída que cresceu no Brasil, oferecida por empresas como a Nexus Credi, de Belo Horizonte, que atua com crédito em garantia de veículo e de imóvel. O risco principal: se a dívida não for paga, o carro vai embora.
O momento ajuda a explicar a procura. O Brasil chegou a julho de 2026 com 83,9 milhões de pessoas negativadas, recorde da série da Serasa, e 82% das famílias tinham contas a pagar, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC). É o maior número desde 2010, quando a pesquisa começou.
A diferença de taxas é o que atrai. O empréstimo pessoal sem garantia cobra entre 8,4% e 8,6% ao mês, conforme o Banco Central, o que passa de 160% ao ano. No rotativo do cartão, a conta supera 400% ao ano. Com o carro quitado como garantia, as taxas começam em 1,09% ao mês mais a inflação (IPCA).
Só que a taxa anunciada não é o custo final. Entram na conta a avaliação do veículo, o registro no Sistema Nacional de Gravames e, em muitos contratos, o seguro do carro. Tudo isso empurra o total da operação para cima, mesmo quando o percentual mensal parece baixo.
O cuidado mora aqui. Diferente do empréstimo pessoal, que não coloca bem nenhum em risco, o crédito com garantia de veículo deixa o carro alienado até a última parcela. Se o aperto continuar e houver atraso, a família perde o dinheiro e o automóvel. Levantamento de dez anos da Serasa mostra que 42% de quem está negativado hoje já tinha ficado inadimplente há uma década, sinal de que parte das famílias entra e sai da dívida sem resolver a causa.
João Viríssimo, diretor da Nexus Credi, resume o alerta: "A pergunta certa não é qual taxa você conseguiu, é quanto você vai pagar no fim. Tem operação com taxa menor e custo total maior, e é aí que a troca deixa de fazer sentido".
Para acessar esse crédito, o carro precisa ter no máximo 17 anos de fabricação e documentação em dia. Se ainda houver parcelas em aberto, parte do novo empréstimo vai primeiro para quitar o saldo antes de o dinheiro cair na conta.
O prazo também pesa. As operações com carro em garantia duram de 12 a 60 meses, bem mais curtas que o financiamento de imóvel, que chega a 240 meses. Prazo menor significa parcela maior. Antes de assinar, vale colocar no papel o valor final da dívida, não apenas a taxa oferecida.
Para trabalhadores e empreendedores de Minas, a decisão passa por uma conta simples: o alívio na parcela compensa o risco de perder o veículo que garante o deslocamento até o serviço? A tendência, com o endividamento ainda em patamar recorde, é que a procura por crédito com garantia siga firme nos próximos meses, mas sem resolver a causa do desequilíbrio financeiro.