Revisão científica triplica espécies de plantas no Sul e Sudeste
Pesquisa publicada na Phytotaxa triplica o número conhecido de espécies de Thaumatocaryon no Sul e Sudeste, saltando de três para nove. Seis são novas para a ciência, e todas estão ameaçadas de extinção.
Uma revisão científica publicada na revista Phytotaxa triplicou o número de espécies conhecidas de plantas do gênero Thaumatocaryon no Sul e Sudeste do Brasil, saltando de três para nove. Seis são novas para a ciência, e todas estão ameaçadas de extinção.
A última revisão completa do grupo havia sido feita em 1927, pelo botânico Ivan Murray Johnston, que reconheceu apenas três espécies. Agora, quase um século depois, a nova pesquisa revelou uma diversidade oculta, com consequências para a conservação da biodiversidade brasileira.
As pequenas ervas, conhecidas popularmente como borragens-miúdas, vivem em ambientes úmidos e abertos, como campos naturais, margens de rios e banhados. Elas pertencem à família Boraginaceae, a mesma do confrei.
O gênero Thaumatocaryon e seu irmão Moritzia são os únicos representantes atuais da tribo Boragineae nas Américas. No passado, porém, o registro fóssil mostra que essas plantas tiveram distribuição muito maior, da América do Norte até a América do Sul. As linhagens norte-americanas foram extintas, e o grupo ficou restrito à porção meridional da América do Sul, além de uma espécie nos Andes.
Desde 1927, eram reconhecidas apenas duas ou três espécies, dependendo do autor. A nova investigação, conduzida por Luiz Funez, elevou o número para nove, incluindo um nome revalidado, Thaumatocaryon hilarii, e seis espécies novas, como T. hispidissimum, T. macrophyllum, T. moritziiflorum, T. parviflorum e T. quiririënse.
A identificação foi possível graças à análise de espécimes em herbários do Brasil e do exterior, além de expedições de campo. Detalhes imperceptíveis a olho nu, como a disposição das folhas, a presença e o formato de tricomas e o comprimento do tubo da corola, foram fundamentais para delimitar os novos táxons.
O alerta veio com a avaliação do status de conservação: todas as espécies estão ameaçadas de extinção. Três das recém-descritas são conhecidas por apenas um único registro de herbário. "Isso significa que existe a possibilidade de que algumas delas já estejam completamente extintas, destruídas antes mesmo de serem apresentadas ao mundo", alerta Funez.
As principais ameaças incluem a drenagem de áreas úmidas para agricultura, o avanço da silvicultura de pinus e eucalipto, o crescimento urbano desordenado e a degradação da Floresta de Araucárias e dos Campos Sulinos. "Quando várias espécies distintas são tratadas como uma ou duas espécies 'comuns', a avaliação de risco tende a mascarar a realidade", explica o pesquisador.
O trabalho mostra como subestimar a diversidade aumenta o risco de extinção. "Às vezes, descobrir que existem mais espécies não é apenas uma questão de taxonomia. É também descobrir quantas delas podem estar desaparecendo sem que sequer saibamos que existem", conclui Funez.