Milei adota postura de confronto sobre Malvinas, avalia professora
Javier Milei anunciou que vai assinar um decreto para acelerar sanções contra empresas que exploram petróleo nas Ilhas Malvinas sem a aprovação de Buenos Aires. A medida aumenta a pressão sobre um consórcio formado pela israelense Navitas Petroleum, com 65% de participação, e pela britânica Rockhopper, com 35%. A reserva é estimada em cerca de 1,7 bilhão de barris e a produção deve começar em 2028.
A Argentina já tinha proibido as duas empresas de operar no país por 20 anos. Agora, Milei sinaliza ampliar as sanções. Para a professora de Relações Internacionais da UNIFESP, Carolina Pedroso, a postura tem motivações predominantemente políticas e internas. Ela lembra que Milei fez um pronunciamento à nação na quinta-feira (3), convocando os argentinos a se unirem em torno da defesa das Malvinas. "É claramente um expediente político, o mesmo que foi usado na ditadura", afirmou. A tentativa de tomada das ilhas em 1982 ocorreu quando o regime estava enfraquecido, como forma de unir o país, e acabou precipitando o fim da ditadura após uma derrota considerada humilhante.
A professora aponta o calendário eleitoral como fator determinante. Há eleições previstas para outubro do ano que vem, que renovarão metade da Câmara e um terço do Senado. Milei é considerado candidato quase certo à reeleição. "Ele tenta de novo essa cartada nacionalista", avaliou. A questão das Malvinas é um dos poucos pontos de convergência entre Milei e o kirchnerismo, o que representa aproximação de estratégia com adversários. A análise é reforçada por avaliações da revista britânica The Economist, que apontam que Milei vinha sendo criticado pela direita por não adotar discurso mais duro sobre as ilhas. A mudança de tom seria motivada pela queda de popularidade, agravada por baixo crescimento, emprego formal fraco, custo de vida elevado e denúncias de corrupção.
A avaliação é que o endurecimento deve permanecer no campo diplomático, sem intervenção militar, pois uma incursão poderia prejudicar a Argentina em acordos com Londres, compra de armamentos com componentes britânicos e relações com o FMI. Carolina Pedroso concorda e destaca que as Malvinas geram comoção nacional: jogadores da seleção argentina, que evitaram temas políticos durante torneios, exibiram faixas reivindicando soberania sobre as ilhas. "Eu diria que é uma forma realmente do Milei tentar se blindar das críticas e das dificuldades que ele tem enfrentado para o próximo ciclo eleitoral", concluiu.
No cenário internacional, a professora separa tarifas comerciais de geopolítica. Declarações de Donald Trump sobre não ajudar o Reino Unido nas Malvinas foram feitas em contexto de ressentimento, após aliados da Otan não apoiarem os EUA em uma guerra de escolha não consultada à aliança. "Foi mais uma observação, mais a expressão de um certo ressentimento", disse. Ela também vê interesse americano no hemisfério ocidental: um território europeu seria obstáculo ao maior controle dos EUA sobre as Américas, especialmente na exploração de petróleo. E observa contradição: apesar da simpatia por Israel, Milei sanciona um consórcio com empresa israelense, o que deixa claro que, "acima de tudo, vem o interesse político".