CapaCidade
Cidade

Milei adota postura de confronto sobre Malvinas, avalia professora

ResumoJavier Milei adotou postura de confronto sobre as Ilhas Malvinas ao anunciar decreto que acelera sanções contra empresas de exploração de petróleo sem aprovação de Buenos Aires. A professora Carolina Pedroso avalia que a medida possui motivações políticas e internas, visando fortalecer a imagem do governo argentino diante de um tema sensível à soberania nacional.

Javier Milei anunciou um decreto para acelerar sanções contra empresas que exploram petróleo nas Ilhas Malvinas sem aprovação de Buenos Aires. Para a professora Carolina Pedroso, a postura tem motivações políticas e internas.

Inácio Bicalho
Inácio Bicalho Repórter de Interior e Agro · 06 de setembro de 2026 · 2 min de leitura
Milei adota postura de confronto sobre Malvinas, avalia professora

Javier Milei anunciou que vai assinar um decreto para acelerar sanções contra empresas que exploram petróleo nas Ilhas Malvinas sem a aprovação de Buenos Aires. A medida aumenta a pressão sobre um consórcio formado pela israelense Navitas Petroleum, com 65% de participação, e pela britânica Rockhopper, com 35%. A reserva é estimada em cerca de 1,7 bilhão de barris e a produção deve começar em 2028.

A Argentina já tinha proibido as duas empresas de operar no país por 20 anos. Agora, Milei sinaliza ampliar as sanções. Para a professora de Relações Internacionais da UNIFESP, Carolina Pedroso, a postura tem motivações predominantemente políticas e internas. Ela lembra que Milei fez um pronunciamento à nação na quinta-feira (3), convocando os argentinos a se unirem em torno da defesa das Malvinas. "É claramente um expediente político, o mesmo que foi usado na ditadura", afirmou. A tentativa de tomada das ilhas em 1982 ocorreu quando o regime estava enfraquecido, como forma de unir o país, e acabou precipitando o fim da ditadura após uma derrota considerada humilhante.

A professora aponta o calendário eleitoral como fator determinante. Há eleições previstas para outubro do ano que vem, que renovarão metade da Câmara e um terço do Senado. Milei é considerado candidato quase certo à reeleição. "Ele tenta de novo essa cartada nacionalista", avaliou. A questão das Malvinas é um dos poucos pontos de convergência entre Milei e o kirchnerismo, o que representa aproximação de estratégia com adversários. A análise é reforçada por avaliações da revista britânica The Economist, que apontam que Milei vinha sendo criticado pela direita por não adotar discurso mais duro sobre as ilhas. A mudança de tom seria motivada pela queda de popularidade, agravada por baixo crescimento, emprego formal fraco, custo de vida elevado e denúncias de corrupção.

A avaliação é que o endurecimento deve permanecer no campo diplomático, sem intervenção militar, pois uma incursão poderia prejudicar a Argentina em acordos com Londres, compra de armamentos com componentes britânicos e relações com o FMI. Carolina Pedroso concorda e destaca que as Malvinas geram comoção nacional: jogadores da seleção argentina, que evitaram temas políticos durante torneios, exibiram faixas reivindicando soberania sobre as ilhas. "Eu diria que é uma forma realmente do Milei tentar se blindar das críticas e das dificuldades que ele tem enfrentado para o próximo ciclo eleitoral", concluiu.

No cenário internacional, a professora separa tarifas comerciais de geopolítica. Declarações de Donald Trump sobre não ajudar o Reino Unido nas Malvinas foram feitas em contexto de ressentimento, após aliados da Otan não apoiarem os EUA em uma guerra de escolha não consultada à aliança. "Foi mais uma observação, mais a expressão de um certo ressentimento", disse. Ela também vê interesse americano no hemisfério ocidental: um território europeu seria obstáculo ao maior controle dos EUA sobre as Américas, especialmente na exploração de petróleo. E observa contradição: apesar da simpatia por Israel, Milei sanciona um consórcio com empresa israelense, o que deixa claro que, "acima de tudo, vem o interesse político".

// Leia também

Publicidade