Por que a mesma pessoa pode vestir tamanhos diferentes?
Uma calça veste bem em um tamanho e a blusa pede outro número, mesmo sem nenhuma mudança nas medidas do corpo. A diferença também aparece ao experimentar peças de uma mesma categoria ou roupas de marcas diferentes. O motivo está na relação entre o corpo e a forma como a roupa é construída.
A numeração da etiqueta não corresponde a uma medida única do corpo. O tamanho indicado pode variar de acordo com a modelagem, o tipo de roupa e as proporções de quem vai usá-la. Vestir tamanhos diferentes em peças diferentes é consequência das diferenças entre as proporções corporais e as características de cada modelagem.
O corpo não apresenta as mesmas proporções em todas as regiões. Busto, cintura, quadril, abdômen, costas e altura podem formar combinações diferentes de medidas. A roupa é construída a partir dessas referências e ainda considera as características do modelo.
Segundo Bárbara Poci, docente do SENAI CETIQT e mestre em Design pela PUC-Rio, o corpo humano não aumenta ou diminui de maneira linear e proporcional em todas as suas dimensões. Uma pessoa pode ter uma medida de busto e apresentar proporção diferente entre cintura e quadril. Outra pode ter o mesmo busto, mas diferenças nas costas, no abdômen, na altura ou na distribuição dos volumes corporais.
"Duas pessoas podem apresentar a mesma medida de busto, por exemplo, mas ter diferenças importantes na cintura, no quadril, no abdômen, nas costas, na altura do corpo ou na distribuição dos volumes corporais", explica a especialista.
Essas diferenças interferem na construção da modelagem e em como a roupa se acomoda sobre o corpo. Bárbara também destaca que as tabelas de medidas orientam o desenvolvimento das peças, mas não conseguem representar sozinhas todas as formas corporais. Em sua pesquisa de mestrado, ela investigou questões antropométricas e ergonômicas ligadas à construção de bases de modelagem.
A roupa não precisa reproduzir exatamente as medidas do corpo. Durante a modelagem, entram as chamadas folgas de vestibilidade, que permitem os movimentos e contribuem para o caimento esperado. O processo considera o tipo de peça, o tecido, a silhueta desejada e as folgas necessárias para conforto e mobilidade. Uma peça mais ajustada terá relação diferente entre as medidas do corpo e as medidas finais da roupa em comparação com uma modelagem mais ampla.
Isso explica por que duas peças com a mesma numeração podem apresentar medidas diferentes. A variação aparece ainda quando a pessoa troca de marca. Segundo Bárbara, as empresas podem estabelecer suas próprias tabelas e interpretar as referências de acordo com o público, o produto e o posicionamento da marca.
Assim, uma pessoa pode encontrar uma peça que veste bem em determinado tamanho e precisar de outro número em uma segunda marca. O mesmo pode acontecer entre modelos diferentes da mesma empresa. No fim, o número da etiqueta funciona como referência para a roupa, não como medida universal do corpo.