Vorcaro e o pagamento para 'Dark Horse': o que diz a PF
Diálogos extraídos de um dos celulares de Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, revelam a rotina de cobranças em torno do financiamento da cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), intitulada "Dark Horse". O conteúdo está em uma informação de polícia judiciária de análise enviada pela Polícia Federal (PF) ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, documento que amparou a abertura de inquérito contra o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Em 28 de janeiro de 2025, mês previsto para a entrada da primeira das 14 parcelas, Vorcaro escreveu ao cunhado Fabiano Zettel: "Não pode falhar mais". Na mesma conversa, ressaltou que "esse é o mais importante, disparado". O pagamento só saiu em 13 de fevereiro de 2025, 24 dias após o prazo.
O caminho até a primeira parcela
O depósito ocorreu depois de Vorcaro recorrer à Entre Participações e Investimentos, empresa de Antônio Carlos Freixo Jr., o "Mineiro", que celebrou acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR). O banqueiro alegou dificuldades de fluxo de caixa ao publicitário Thiago Miranda, que intermediou reunião entre ele, Flávio e o deputado federal Mario Frias (PL-SP) em 11 de dezembro de 2024. "Estamos com problema pra fazer o câmbio e olha que estou fazendo interno", justificou.
Natural de Pouso Alegre, no Sul de Minas, "Mineiro" era conhecido como "pioneiro nas Bahamas", em referência às operações offshore que estruturou no arquipélago do Caribe. A Entre Participações transferiu a parcela de US$ 2 milhões, à época R$ 10,4 milhões, dois dias após Vorcaro se irritar com o relato de Zettel sobre dificuldades cadastrais do colaborador. "Cara, não é possível, não acredito", respondeu. "Preciso resolver hoje", frisou, com "hoje" em maiúsculas.
Atrasos que se repetem
Em 12 de março de 2025, Vorcaro alertou Zettel que apenas a primeira parcela estava paga e havia duas atrasadas, uma de janeiro e outra de fevereiro. "Precisa me ajudar a controlar (sic) isso", pediu. As parcelas somavam US$ 3,6 milhões, R$ 21,3 milhões na cotação do dia, quitadas em 24 de março.
Em 20 de agosto de 2025, com duas parcelas vencidas e uma a vencer, Flávio procurou Vorcaro diretamente. O Banco Central (Bacen) analisava a operação do Banco de Brasília (BRB) para comprar 58% do capital total do Master, e o banqueiro já não respondia às cobranças de Thiago Miranda. Em áudio de 8 de setembro de 2025, cinco dias após o Bacen barrar a operação, o candidato do PL voltou a cobrar, embora reconhecesse o "momento dificílimo" do banqueiro. "Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel (ator), num Cyrus (Nowrasteh, diretor) (...)?! Pô, ia ser muito ruim, né?!", apontou.
Vorcaro se desculpou e prometeu resolver no dia seguinte, mas a nova remessa, de US$ 1,6 milhão (R$ 8,8 milhões), saiu apenas em 16 de setembro de 2025. Os dois conversaram por 42 segundos em ligação de voz no WhatsApp e combinaram se encontrar no dia seguinte. O pagamento seria o último.
Até ser preso preventivamente pela PF por suspeitas de tentativa de fuga, Vorcaro pagou US$ 12,3 milhões dos US$ 24 milhões previstos, em sete remessas, todas pela Entre Investimentos e Participações. A estrutura indica que ele financiou 96% do orçamento de "Dark Horse", cujo total era US$ 25 milhões. Em arquivo enviado em 18 de dezembro de 2024, intitulado "Plano de Negócios Capitão do Povo", Miranda indicou captação dividida em 50 cotas de US$ 500 mil, das quais 48 seriam do dono do Master. Um estudo de caso no mesmo arquivo previa retorno de 20% do valor investido, ou US$ 4,8 milhões (R$ 24,4 milhões na cotação deste sábado, 11/9), com divisão igualitária do saldo final entre produtores e investidores, sem clareza sobre se o banqueiro usufruiria do lucro.
O TEMPO Brasília procurou a defesa de Vorcaro, que não quis se manifestar. A campanha de Flávio também foi questionada e não retornou até a publicação. A reportagem ainda tenta contato com "Mineiro". O espaço segue aberto para atualização.