Alterações no DNA podem explicar avanço de câncer cerebral em jovens
Pesquisa publicada na Nature Genetics investiga por que gliomas com mutação no gene IDH, que atingem adultos entre a terceira e a quinta décadas de vida, podem acelerar de forma repentina. Alterações na metilação do DNA aparecem como explicação.
Pesquisadores da Weill Cornell Medicine, nos Estados Unidos, identificaram um mecanismo que ajuda a entender por que alguns tumores cerebrais evoluem de forma rápida e agressiva. O estudo, publicado em junho na revista Nature Genetics, investigou o glioma com mutação no gene IDH, um tipo de câncer que costuma atingir adultos jovens e que pode apresentar avanços repentinos.
A descoberta aponta que alterações no processo de metilação do DNA regulam como os genes serão expressos. Se o DNA é uma espécie de manual de instruções para as células, a metilação determina quais partes desse manual se aplicam a cada célula sem modificar a sequência genética. O trabalho demonstrou que, nas fases de progressão mais agressiva do glioma, esse processo estava falhando e não indicava corretamente quais características suprimir.
"Tumores com essa mutação são uma categoria própria que costuma acometer adultos geralmente entre a terceira e a quinta décadas de vida. Em geral, os gliomas com mutação em IDH apresentam crescimento mais lento e melhor prognóstico inicial, mas podem progredir para formas mais agressivas", explica a oncologista Ludmila de Oliveira Muniz Koch, coordenadora do Grupo Médico Assistencial de Neuro-oncologia do Einstein Hospital Israelita.
Os gliomas são tumores que atingem o cérebro e se formam ao redor dos neurônios. Dividem-se em graus conforme a velocidade de progressão: os de baixo grau crescem lentamente, enquanto nos de alto grau a doença avança rapidamente. Até recentemente, acreditava-se que a transformação para formas mais agressivas decorria principalmente do acúmulo de novas mutações genéticas, como a própria mutação de IDH, que origina o tumor.
"O estudo mostra que a evolução do glioma não depende apenas do surgimento de novas mutações, mas também de mudanças na forma como os genes são regulados. Essas alterações favorecem o aparecimento de células mais imaturas, com características semelhantes às de células-tronco, além de maior capacidade proliferativa e maior potencial de resistência aos tratamentos", detalha Koch.
Para a oncologista do Einstein, uma das grandes contribuições do artigo é mostrar que a progressão repentina da doença está, na realidade, na ausência das enzimas que ajudam a coordenar a metilação. "Isso ajuda a explicar por que alguns gliomas que permanecem relativamente estáveis por anos podem, em determinado momento, evoluir rapidamente para formas de graus mais agressivos", avalia Ludmila Koch.
Os tumores cerebrais são graves não apenas pelo dano cognitivo progressivo que causam, mas também porque o tratamento costuma envolver cirurgias no sistema nervoso seguidas de aplicações de terapias agressivas em tecidos muito sensíveis. Todo novo conhecimento sobre a biologia desses tumores pode contribuir para diagnósticos mais precisos, capazes de permitir que os tratamentos sejam feitos mais precocemente ou até mesmo abrir caminho para novas estratégias terapêuticas.
"Embora essa descoberta ainda não tenha aplicação imediata na prática clínica, o estudo abre perspectivas importantes", pondera Koch. "No futuro, os padrões poderão indicar risco de progressão mesmo antes de mudanças visíveis nos exames de imagem, tornando o diagnóstico mais preciso e refinando a estimativa do prognóstico."
Os achados também podem ajudar a explicar por que o tratamento atualmente usado nesse tipo de glioma falha em parte dos casos. Os inibidores de IDH, droga já utilizada no tratamento desses tumores junto com cirurgias, quimioterapia e radioterapia, funcionam apenas em parte dos pacientes. "Os pesquisadores levantam a hipótese de que os tumores que não respondem à droga sejam justamente aqueles com maior grau de hipometilação do DNA, o que tornaria mais difícil para o medicamento reverter as células para um estado menos agressivo", conclui a médica.
Se confirmada em estudos futuros, essa hipótese pode orientar a seleção de quais pacientes se beneficiariam mais desse tratamento e melhorar a qualidade de vida desses indivíduos. Para chegar a essa resposta, pesquisadores de diferentes instituições devem seguir investigando os mecanismos descritos no estudo, testando as hipóteses levantadas sobre o papel da metilação e da resposta a tratamento nos próximos anos.