Nossa Quitanda: Mais que um comércio, um afeto mineiro
Em Minas Gerais, o termo "nossa quitanda" evoca um significado cultural e afetivo que vai além da simples definição de um estabelecimento comercial. Longe de ser apenas uma pequena mercearia, mercadinho ou feira que vende produtos como frutas, verduras e ovos, a quitanda em solo mineiro representa um momento de hospitalidade e fartura, intrinsecamente ligado à intimidade familiar.
O café da tarde, muitas vezes a última refeição para os mais velhos, ganha contornos especiais com a quitanda. Ela se manifesta como um ato mínimo de extrema generosidade, ofertando miudezas em abundância. A preparação do café coado na hora é vista com compaixão, evitando que o líquido precioso e fumegante seja consumido apressadamente em pé, como um "coreto sem música".
A companhia para o café é garantida por quitutes caseiros, como a broa, a rosquinha, o biscoito de polvilho, o pedaço de bolo e o pão de queijo. Esses elementos criam um pretexto para que as pessoas se sentem à mesa, transformando o que poderia ser um piquenique improvisado dentro de casa em um verdadeiro banquete de belisquetes. Essa abundância surge de forma quase espontânea, multiplicando o que há na geladeira e em potes.
A atmosfera da quitanda mineira é marcada pela informalidade e pela intimidade. A segunda mesa, a da cozinha, com cadeiras encostadas nas paredes, torna-se o palco para esse ritual. As roupas mais simples, próximas do pijama, e a substituição da xícara pelo copo lagoinha reforçam a ausência de formalidades. Não há registros ou fotografias, apenas a celebração do momento presente.
O uso de diminutivos como "queijinho" ou "docinho" serve como uma sedução para a degustação lenta, neutralizando a gula e o pecado. Essa linguagem infantilizada convida a provar e a permanecer, deixando a neurose e a dieta do lado de fora. Essa tradição é tão enraizada que se estende a momentos como velórios, onde café e tira-gosto são oferecidos, simbolizando a persistência da vida e da hospitalidade, mesmo diante da saudade. O portal O TEMPO utiliza cookies para otimizar a experiência do usuário em seu navegador.