Medo no Centro Político: Radicalização e Crise do STF
A proximidade das eleições provoca um movimento no centro político, marcado pelo medo de Lula e do bolsonarismo. Liberais e conservadores se posicionam estrategicamente, enquanto a crise do STF se torna munição eleitoral para Flávio Bolsonaro.
A 15 dias das eleições, o centro político brasileiro experimenta um movimento de "placas tectônicas", dividindo-se entre o medo da continuidade de Lula e o temor da volta do bolsonarismo. Liberais que rejeitam o governo petista se aproximam do presidente por receio da extrema direita, enquanto conservadores que mantinham distância do bolsonarismo ensaiam o voto útil em Flávio Bolsonaro para impedir a reeleição de Lula. Ambas as decisões não nascem da esperança, mas do medo.
Lula aposta na "economia do afeto", com programas sociais e aumento de renda. O reajuste do Bolsa Família, de R$ 600 para R$ 691, com impacto estimado de R$ 5,8 bilhões neste ano, é a expressão dessa estratégia. Embora o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, negue motivação eleitoral, a medida é interpretada como jogada populista em período de campanha.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, explora a crise do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele associa Lula aos ministros indicados pelo PT, buscando transformar o desgaste da Corte em combustível eleitoral. A frase "quem está votando em Lula está votando em Alexandre de Moraes" resume essa estratégia de apresentar o presidente como fiador de um sistema judicial que, para parte do eleitorado, perdeu a imparcialidade.
Uma pesquisa Atlas/Bloomberg indica que a crise do STF pesa mais sobre Lula (49,5%) do que sobre Flávio Bolsonaro (20,9%). O candidato do PL insiste na associação entre Lula e Moraes, apesar de o ministro ter sido indicado ao STF por Michel Temer. Lula reage, buscando vincular Flávio ao banqueiro Daniel Vorcaro e ao financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro, tornando o caso Master munição eleitoral.
A sessão do Supremo que tentou decidir sobre a investigação contra Moraes expôs divisões internas e dificuldades consensuais, agravando o problema. Quanto mais o STF se divide, mais se transforma em protagonista da eleição, alimentando o discurso de Flávio e desgastando Lula.
Nesse cenário, o sociólogo Zeca Martins, coordenador do Derrubando Muros, anunciou que votará em Lula, apesar de sua avaliação severa do governo petista. Martins argumenta que um governo ruim pode ser criticado e substituído, mas um governo que ameace as instituições capazes de garantir a crítica representa um perigo maior. O objetivo é preservar o "direito de não gostar", a liberdade de combater o governo sem risco à segurança pessoal ou familiar.
Liberais, democratas e antigos adversários do PT começam a considerar que a rejeição a Lula não os pode colocar no mesmo campo de um projeto identificado com autoritarismo e hostilidade à imprensa. Para este setor, votar em Lula significa impedir uma ameaça maior.
No campo oposto, conservadores e eleitores de centro-direita temem a continuidade do PT, a expansão do papel do Estado e o aumento dos gastos públicos. Mesmo desconfortáveis com o sobrenome Bolsonaro, podem concluir que Flávio é o único candidato capaz de derrotar o presidente. O voto útil à direita nasce dessa rejeição. O centro se move, mas não caminha unido, dividido entre o medo da continuidade de Lula e o medo da volta do bolsonarismo ao poder.