De PC a Vorcaro, a nova Tsar Bomba da República
O escândalo Master colocou Daniel Vorcaro no epicentro de uma crise que racha o Supremo Tribunal Federal e ameaça a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência. Documentos da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República com sigilo levantado pelo STF apontam que Flávio era interlocutor direto de Vorcaro na negociação de investimentos no filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro.
O material indica que Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal que vive nos EUA, atuava como gestor do dinheiro enviado por Vorcaro ao longa. Flávio negociou diretamente com o ex-banqueiro o repasse de pelo menos US$ 24 milhões, cerca de R$ 122,7 milhões na cotação atual.
O que está em jogo no escândalo Master
O caso Master se abateu sobre os senadores Ciro Nogueira (PP-PI) e Jaques Wagner (PT-BA), além de ameaçar Renan Calheiros (MDB-AL) e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Para o bolsonarismo, o material contra Alexandre de Moraes tem potencial de impulsionar a campanha de Flávio: desloca o conflito entre os presidenciáveis para o âmbito do STF.
A Corte está rachada entre André Mendonça, relator do inquérito Daniel Vorcaro-Master, e Alexandre de Moraes, relator do julgamento que condenou Jair Bolsonaro por tentativa de golpe. Mendonça foi indicado ao STF por Bolsonaro e anunciado como "ungido" por Michelle Bolsonaro, em aceno à expansão do conflito ao campo religioso. Em 1º de setembro, divulgou relatório da PF que investigou Moraes em diálogos comprometedores com Vorcaro.
Moraes e ministros que tendem a apoiá-lo, como Cristiano Zanin, pediram ao presidente do STF, Edson Fachin, a retirada do sigilo de todos os documentos das investigações. A PGR, comandada por Paulo Gonet, fez pedido semelhante. Fachin determinou que Mendonça derrubasse o sigilo das apurações relativas ao Master, com prazo de 24 horas.
O grupo ligado a Moraes quer acesso integral aos documentos antes do julgamento marcado para terça-feira, 15, quando o plenário poderá decidir sobre abertura de investigação da relação entre Moraes e Vorcaro. O mesmo grupo reivindica que seja analisada a denúncia de Moraes contra Mendonça por condutas que poderiam se enquadrar nas leis de improbidade administrativa e abuso de autoridade, além de quebra de imparcialidade judicial.
Cinco ministros do STF tiveram, em diferentes níveis, interações com Vorcaro: Dias Toffoli, Kassio Nunes Marques, Luiz Fux, o próprio André Mendonça e Alexandre de Moraes. Mendonça teve encontro privado com Vorcaro em março de 2025, em São Paulo, na sede do Instituto Iter, intermediado pelo deputado Cezinha de Madureira (PL-SP) e pelo advogado Ciro Rocha Soares.
Vorcaro tem raízes entrelaçadas à família Valadão, fincadas na Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte. É apontado como o maior fraudador da história do sistema bancário brasileiro, até aqui suspeito de desvios de R$ 12 bilhões. Pela rede de tráfico de influência estruturada em diferentes camadas, se transformou, neste contexto político-eleitoral, em algo como uma "Tsar Bomba", o artefato termonuclear mais potente detonado na história, testado pela União Soviética em 1961.
A comparação com PC Farias, ex-tesoureiro da campanha de Fernando Collor, morto em 23 de junho de 1996 em Maceió ao lado da namorada Suzana Marcolino, ajuda a medir a dimensão do caso. PC Farias personificou a promiscuidade entre o capital privado e o topo da República. Vorcaro encontrou na história quem o superasse.
Para quem acompanha a economia mineira, o caso interessa além da política: a rede de influência que nasceu em Belo Horizonte envolve instituições financeiras e contratos que afetam a confiança no sistema bancário. O desfecho do julgamento de 15 de setembro deve definir os próximos capítulos.