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Casa das Irmãs: rumor de sequestro dividiu a Síria

Um rumor sobre sequestro de mulheres, batizado de Casa das Irmãs, passou a circular na Síria depois que grupos rebeldes entraram em Damasco em 2024, na esteira da queda do regime de Bashar al-Assad. O boato dividiu o país e empurrou famílias a decisões extremas, segundo relatos ouvidos pela DW.

A Casa das Irmãs é um rumor sobre sequestro de mulheres que se espalhou na Síria após a queda de Bashar al-Assad, em 2024. A história ganhou tração em meio ao vácuo de poder, dividiu a população e alimentou o medo de famílias, sobretudo de minorias. Casos como o da professora Laya, de Damasco, mostram como o temor virou motivo de fuga.

Laya, professora de matemática e mãe de três filhos, deixou a Síria depois de uma batida na porta e uma ameaça velada. Ela morava em Damasco e pediu que a DW não usasse seu nome completo por segurança. A família é alauíta, mesma seita religiosa do ex-ditador sírio Bashar al-Assad, e costuma ser alvo de ataques por ser vista como aliada de Assad.

"Mas nós nunca o apoiamos. O pai dele matou membros da minha família. Na verdade, nós o odiávamos", disse ela à DW. Ainda assim, Layla relata ter sentido medo quando grupos rebeldes, que ela chama de extremistas, entraram em Damasco em 2024 pela primeira vez após a queda do regime.

No início, ela e o marido decidiram ficar na Síria. Foi quando um estranho bateu à porta. "Ele disse que sabia que minha filha tocava piano", contou. A fala soou como ameaça velada e selou a decisão da família de partir.

O episódio ilustra como um rumor pode reorganizar a vida de um país inteiro. A Casa das Irmãs não é um caso isolado: em contextos de transição política, boatos sobre violência contra mulheres circulam rápido e encontram terreno fértil no medo e na desconfiança entre grupos. Na Síria, o efeito foi duplo. De um lado, famílias alauítas e de outras minorias passaram a temer represálias. De outro, a história aprofundou a divisão entre quem apoiou a queda de Assad e quem teme o que veio depois.

Para Layla, a saída do país veio antes de qualquer confirmação sobre o rumor. A batida na porta e a menção à filha bastaram. O caso dela ajuda a entender o que mudou na Síria pós-Assad: o medo deixou de ser apenas político e passou a invadir a rotina doméstica, com ameaças que chegam à porta de casa e transformam um boato em motivo para deixar tudo para trás.

O próximo desdobramento da história deve vir do terreno, com novos relatos de famílias que deixaram a Síria após 2024 e com a forma como o rumor continua a circular entre comunidades dentro e fora do país.

Ronaldo Pimenta
Repórter de Esporte Mineiro
Torcedor convertido em repórter, cobre o futebol de Minas com paixão controlada e imparcialidade entre rivais.
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