Terremoto, avalanche e enxurrada: efeito em cadeia no Nepal
Uma avalanche na fronteira entre o Nepal e o Tibete, nesta quarta-feira (26), deixou mais de 90 mortos e centenas de desaparecidos. É a pior tragédia na região em mais de dez anos. Vídeos mostram a onda de lama descendo o vale, arrastando pontes e engolindo vilas na área turística.
A causa do desastre ainda é analisada. A agência nacional de desastres confirmou que houve "uma avalanche de neve e rochas". Horas antes, um terremoto de magnitude 4,4, com 10 quilômetros de profundidade, foi registrado. Ainda não está claro como os dois eventos se conectam, mas há suspeita de relação com a ruptura do barramento que causou a enxurrada.
Parte da geografia explica o que pode ter acontecido. O Nepal, encaixado entre a Índia e a China, abriga oito dos 14 picos mais altos do mundo, na cadeia do Himalaia. As geleiras da região não são só gelo: armazenam água líquida em diferentes camadas, na superfície, no meio e sob a massa congelada.
A estação chuvosa, a monção, também contribuiu. Houve chuva persistente nos dez dias anteriores ao desastre, além de precipitação moderada a forte no sul do Tibete, o que pode ter aumentado o volume de água na bacia do rio Trishuli.
"A gente tinha um registro de chuva anterior que pode ter feito acumular água nessas geleiras. Isso transbordou e desceu com muita intensidade", explica Aderson Farias, sismólogo e coordenador do laboratório sismológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Ao descer, a avalanche arrastou sedimentos e blocos de rocha até atingir o rio Trishuli, formando uma barragem natural. A água represada acumulou pressão até transbordar com força.
"É como se você abrisse uma comporta: o que estava embaixo começa a descer. É uma água com um poder destrutivo que torna o desastre mais letal ainda", diz Pedro Camarinha, especialista em desastres naturais.
Autoridades do Nepal e do Tibete disseram que o desastre não foi captado por suas ferramentas de risco. "Isso causa uma cheia repentina, sem que ninguém pudesse se preparar para esse volume de água", afirma Gerardo Portela, especialista em gerenciamento de riscos.
A comunidade local, que vive do turismo e da agricultura nos vales, agora espera respostas. A pergunta que fica é como melhorar o monitoramento dessas regiões para que uma tragédia assim não se repita.