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Falta de dragagem no Tapajós pode gerar prejuízo de R$ 850 mi

A falta de dragagem de manutenção na hidrovia do Rio Tapajós pode provocar um impacto de até R$ 850 milhões na cadeia produtiva, segundo estimativa de entidades do setor. O alerta consta de um ofício encaminhado nesta sexta-feira (28) ao Ministério da Agricultura e Pecuária, com pedido de mobilização do governo federal para garantir a navegabilidade da via.

Liderado pela FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária), diversas entidades do setor produtivo assinaram o documento, que classifica a dragagem como uma medida urgente diante do risco de redução do nível dos rios durante a safra 2026/2027. A preocupação é que eventuais restrições à navegação obriguem parte das cargas a migrar para o transporte rodoviário, elevando os custos logísticos, pressionando a cadeia de produção e aumentando a quantidade de emissão de carbono.

O governo desistiu de realizar a dragagem de manutenção da hidrovia após resistência dos povos indígenas com territórios próximos ao Rio Tapajós. O impasse se estende desde o ano passado. Dragagem é o serviço de retirada de sedimentos acumulados no fundo do rio para preservar as condições de navegação. O procedimento influencia diretamente o calado, que é a profundidade da parte da embarcação que fica submersa.

Com a redução do nível dos rios, a margem de segurança entre o casco e o fundo diminui. Na prática, isso pode limitar a quantidade de carga transportada por cada embarcação ou, em situações mais críticas, impedir a navegação em determinados trechos. Em janeiro de 2026, foi feita a contratação de uma dragagem de manutenção no local que foi suspensa em fevereiro pelo governo federal após protestos dessas populações.

Porém, com a previsão de seca extrema causada pelo El Niño, o tema voltou a ser discutido e novamente foi autorizada uma intervenção na hidrovia. Dias depois, o presidente Lula desautorizou a dragagem emergencial do rio. No momento, o Ministério de Portos e Aeroportos monitora diariamente as condições de navegação do rio, que ainda não atingiu níveis críticos de profundidade. Porém, ainda não há um plano B caso a seca atinja níveis que prejudicam a navegabilidade.

Segundo a FPA, uma interrupção ou redução da capacidade de transporte pelo Tapajós poderia gerar custos adicionais de R$ 150 a R$ 250 por tonelada. O cenário também coloca em risco o escoamento de até 5 milhões de toneladas de grãos e poderia provocar a emissão adicional de aproximadamente 55 mil toneladas de carbono, com a transferência das cargas para caminhões.

A hidrovia é um dos principais corredores do chamado Arco Norte, utilizado para levar a produção do Centro-Oeste aos portos das regiões Norte e Nordeste. Em 2025, a movimentação de cargas no Rio Tapajós chegou a 16,8 milhões de toneladas, alta de 14,3% em relação ao ano anterior, de acordo com dados da Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários). Cerca de 88% das cargas transportadas pelo Tapajós são soja e milho, o que torna a hidrovia estratégica para o escoamento da produção agrícola. Apenas nos dois primeiros meses de 2026, foram movimentadas 2,04 milhões de toneladas dos dois produtos.

A principal preocupação do setor é com a possibilidade de uma nova redução do nível dos rios durante o período de seca. O documento cita o risco de ocorrência de um El Niño de forte intensidade, fenômeno que pode reduzir o volume de chuvas na região Norte. As entidades fazem uma comparação com o El Niño registrado entre 2023 e 2024. Naquele período, a falta de chuva baixou o nível do rio, o que prejudicou a navegação na hidrovia e o escoamento de carga.

As entidades também defendem que a dragagem seja realizada sem necessidade de recursos públicos. O documento cita um acordo de cooperação firmado entre o DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) e a Abani (Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Navegação Interior), que permite a execução da dragagem de manutenção pelo setor privado. O setor produtivo afirma que a intervenção poderia ser realizada sem custos para o governo e pede que a medida seja viabilizada antes do período mais severo de seca.

A discussão não se limita ao Tapajós. O documento também cita a necessidade de manutenção permanente de outras hidrovias estratégicas, como a do Rio Madeira, para reduzir a vulnerabilidade da matriz logística brasileira. O novo pedido ocorre cerca de dois meses depois de a FPA encaminhar ao governo federal uma solicitação semelhante para garantir a navegabilidade do Tapajós. Segundo a frente, não houve resposta ou execução das medidas solicitadas até o momento. Com o novo documento, as entidades esperam que o Ministério da Agricultura e Pecuária intensifique a articulação com a Casa Civil e os demais órgãos envolvidos para garantir a execução dos serviços nos pontos críticos da hidrovia antes do período mais severo de estiagem.

Marília Stefani
Repórter de Segurança Pública
De Betim, cobre segurança pública em MG com dado, contexto e cuidado para não alimentar o pânico.
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