Castrado, Homem Vitruviano de BH expõe pudor antigo
Quem passa pela avenida Amazonas, uma das principais de Belo Horizonte, encontra hoje um Homem Vitruviano sem sexo. A réplica do desenho de Leonardo da Vinci pintada na fachada do Instituto Gnosis Brasil, organização que oferece cursos de meditação e autoconhecimento, teve a genitália coberta por um retoque em tinta branca. A obra não nasceu assim: vídeos publicados pelo autor do mural em outubro de 2025 mostram a pintura concluída com o corpo nu por completo. Em algum momento depois disso, o sexo da figura desapareceu sob uma camada espessa de tinta.
O responsável pela pintura é o artista Vander Macciel, de 52 anos. Autodidata desde os 3 anos, ele diz nunca ter cursado faculdade de artes, mas ter se formado estudando por conta própria, em livros e em contato com professores da UFMG e da Escola Guignard. Entre seus trabalhos estão telas, esculturas e móveis; pinturas em fachada ocupam espaço menor em sua produção. Foi o Instituto Gnosis Brasil quem o procurou para renovar uma pintura já existente do Homem Vitruviano na sede, que considerava o desenho anterior "mais cru". Macciel executou o trabalho principalmente aos fins de semana, ao longo de cerca de uma semana, com a participação de alguns membros do instituto, convidados a dar pinceladas na obra.
Sobre a cobertura da genitália, Macciel reconhece: "Foi uma censura de alguma forma". O episódio não o abala. Depois de saber que o mural havia sido vandalizado, ele mesmo decidiu alterar o desenho, retirando o sexo por completo, "para não ficar provocando, porque a ideia do Instituto Gnosis é justamente não ter esse viés de confronto", diz. Questionado se a intervenção o incomodou, descarta: para ele, a criação é um processo "que envolve uma multiplicidade, uma infinitude de possibilidades", capaz de absorver interferências como essa sem se romper.
A versão do instituto vem de Mateus Felipe, instrutor voluntário e atual porta-voz da sede de Belo Horizonte. Ele confirma que a pintura foi feita voluntariamente por um artista ligado à instituição e que, pouco depois de concluída, "alguém, de repente, se sentiu ofendido por ter essa exposição do sexo ali do Homem Vitruviano" e cobriu a região com uma tarja. "Depois disso, a gente fez uma modificação para pelo menos ficar integral a pintura", relata, admitindo certa contrariedade, mas ao mesmo tempo resignando-se. Felipe atribui o episódio a um tabu em torno da sexualidade e defende que a imagem original não carregava intenção erótica: "Não era nem a intenção de ter um certo erotismo naquela imagem, mas é só uma expressão artística mesmo". Nem ele nem Macciel identificam quem exatamente cobriu a pintura.
Episódios de correção da nudez em obras públicas têm precedente na cidade. Em 1930, quase um século antes do mural da avenida Amazonas, o Monumento à Terra Mineira, na Praça da Estação, passou por ajuste semelhante, em bronze, e antes mesmo de deixar o ateliê do escultor. A reconstituição é do arquiteto e urbanista Ulisses Morato, especializado em memória arquitetônica de Belo Horizonte. Ele conta que o monumento, obra do escultor italiano Giulio Starace, inaugurado em 15 de julho daquele ano no governo de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, reúne figuras ligadas à formação histórica de Minas, como Fernão Dias, Felipe dos Santos e Tiradentes, coroadas por uma figura masculina alegórica no alto, representando o povo mineiro.
De acordo com o relato do historiador Abílio Barreto, reproduzido no Inventário dos Monumentos de Belo Horizonte, a figura do alto foi originalmente esculpida nua por Starace, sem a bandeira de Minas Gerais que hoje cobre sua região genital. A mudança partiu de uma visita de Lourenço Baeta Neves, assessor do presidente Antônio Carlos, ao ateliê do escultor em São Paulo, antes da fundição da peça: Baeta Neves considerou a nudez inadequada para um monumento público e obteve de Starace a alteração. Para Morato, o caso "revela um certo conservadorismo moral em relação à nudez no espaço público, que entrava em conflito com a tradição acadêmica da escultura, na qual o nu heróico era perfeitamente legítimo".
Morato cita ainda um segundo episódio na mesma linha: "O Abraço", escultura de Alfredo Ceschiatti feita na década de 1940 para o conjunto arquitetônico da Pampulha, representando duas mulheres nuas abraçadas. Considerada uma imoralidade à época, a obra ficou guardada por anos antes de ser exposta nos jardins do Museu de Arte da Pampulha.
Enquanto reage com pudor à representação artística do corpo humano, Belo Horizonte é paradoxalmente um espaço que parece lidar bem com a exposição do corpo da fachada para dentro. É o que constata o performer de práticas extremas Fernando Brutto, de 37 anos, cuja estreia em apresentações públicas de fisting, prática sexual que envolve a inserção da mão ou do antebraço, ocorreu numa festa fetichista em BH, cidade que ele descreve como "geralmente vista como mais recatada".
A reação das pessoas a suas apresentações na capital mineira, porém, como ele lembra, é "bem tranquila". A situação é diferente em outras capitais para onde Brutto levou o mesmo tipo de performance, como Rio de Janeiro e São Paulo. Ele situa que foi no Rio, não em BH, que enfrentou maior repercussão negativa. Mas contextualiza: o estranhamento com práticas como essa costuma aparecer quando escapam da bolha de quem já convive com elas. "É quando furamos essa bolha que percebemos esse assombro das pessoas", diz. Nesse caso, desconfia que os pudores mineiros contribuem para que a prática ocorra apenas veladamente, o que reduz as chances de maiores repercussões.