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A antiga cidade jardim sabia disso: o que mudou

ResumoParis planeja tornar 55% do território permeável até 2050, enquanto Copenhague investe em calçamento que absorve 950 ml de água por litro. No Brasil, Curitiba e Belo Horizonte testam parques capazes de reter chuva, recuperando princípios de drenagem urbana das antigas cidades jardim para enfrentar enchentes e adaptação climática.

Paris quer 55% do território permeável até 2050 e Copenhague aposta em calçamento que absorve 950 ml por litro. No Brasil, Curitiba e Belo Horizonte testam parques que seguram a chuva.

Daniele Xavier
Daniele Xavier Repórter de Cidades · 15 de setembro de 2026 · 3 min de leitura
A antiga cidade jardim sabia disso: o que mudou

Quem espera o ônibus na Avenida dos Andradas, em Belo Horizonte, sente no corpo o que a chuva faz com o asfalto. A água não infiltra, escorre e se acumula. Cidades que entenderam e aplicam de forma eficiente o conceito de cidade-esponja sabem que é preciso absorver, reter, armazenar, purificar, reutilizar e drenar a água de forma natural.

Pelo mundo, a resposta tem sido retirar o excesso de concreto e devolver espaço a pisos naturais e arborizados, como os antigos já faziam. Paris quer que 55% do seu território seja permeável até 2050. É o Plan Paris Pluie, ou Plano Paris Chuva, que prevê trocar parte do asfalto por piso poroso, ampliar a cobertura vegetal e multiplicar jardins de chuva pela cidade.

A ideia chegou às escolas parisienses: desde 2017, os pátios vêm virando "cours oasis", pátios oásis, com menos asfalto e mais terra, vegetação e pontos de água. Já são 203 pátios e 5 creches transformados, com meta de 360 até 2030, criados para proteger crianças, um dos grupos mais vulneráveis ao calor extremo.

Em Copenhague, a nova estratégia climática é fazer a cidade remover mais carbono do que emite. Parques e praças estão sendo redesenhados para comportar lagos e espaços alagáveis. Algumas ruas recebem um calçamento fibroso que funciona como esponja: a cada litro de água despejado, absorve até 950 mililitros.

O conceito de cidade-esponja nasceu na China, desenvolvido pelo arquiteto e urbanista Kongjian Yu, que morreu no ano passado durante um voo pelo Pantanal.

Mas tirar o concreto, sozinho, pode não resolver. Milton Braga, arquiteto e professor da USP, ao lado do grupo Metrópole Fluvial, também da USP, defende que a solução em escala pequena é uma "permeabilização formiguinha": diante do volume de um temporal e da saturação histórica do solo, esses pisos drenantes seguram muito pouco. Para ele, o urbanismo precisa de vazios de água em escala maior, com parques fluviais e praças inundáveis integrados à paisagem, em vez de escondidos em galerias de concreto.

O erro histórico, segundo ele, foi tratar rio e drenagem como problema exclusivo de engenharia hidráulica. A infraestrutura de água deveria operar com múltiplas funções: conter cheia, oferecer lazer, viabilizar transporte hidroviário e qualificar o espaço coletivo, inclusive nas periferias.

Há exemplos pelo Brasil. Em Curitiba, no Bairro Santa Cândida, às margens do Rio Atuba, surge o Parque Santa Cândida, batizado de "parque esponja", com duas bacias de contenção com capacidade de 60 piscinas olímpicas, integradas a um espaço verde usável em momentos de seca.

Em Belo Horizonte, a proposta do Parque Linear Andradas ganhou corpo em agosto: quase seis quilômetros de corredor verde acompanhando o Ribeirão Arrudas e a linha férrea da Avenida dos Andradas. O rio, hoje canalizado, seria reintegrado à paisagem e os moradores da região teriam área de lazer.

Quem quiser acompanhar a tramitação pode procurar o Legislativo municipal e as informações do projeto. A cidade resiliente do futuro, afinal, é a que não esquece como eram as cidades do passado: lugar de encontro, de convivência, de vida.

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