Transtornos alimentares podem causar danos na saúde bucal
Busca obsessiva pela magreza reacende debate sobre transtornos alimentares. Além dos efeitos no organismo, anorexia e bulimia podem provocar erosão dental, alterações gengivais e perda de esmalte, alerta dentista.
A valorização e a busca obsessiva pela magreza extrema reacendeu o debate sobre padrões de beleza e transtornos alimentares nas redes sociais. Segundo especialistas, o emagrecimento exagerado pode estar associado a problemas dentários e gengivais. Nos últimos meses, as aparências de celebridades como Ariana Grande e Jenna Ortega foram temas de discussões sobre a saúde do corpo magro e os limites da pressão estética, sobretudo entre mulheres.
Para além dos efeitos no organismo, transtornos como anorexia nervosa e bulimia nervosa também podem provocar alterações na saúde bucal. Segundo Carolina Prata, dentista e sócia da SorriaMed, a boca pode apresentar alguns dos primeiros sinais clínicos dessas condições.
Erosão dental na bulimia
Na bulimia, os episódios recorrentes de vômito expõem os dentes ao ácido gástrico. Com o tempo, esse contato pode provocar a perda progressiva do esmalte, em um processo conhecido como erosão dental. Uma revisão sistemática publicada na National Library of Medicine, em 2023, analisou 31 estudos com 1.699 pessoas com transtornos alimentares e encontrou erosão dentária em 54,4% dos pacientes com bulimia e em 26,7% daqueles com anorexia. Entre pessoas com bulimia, a chance de apresentar o problema foi mais de dez vezes maior do que entre indivíduos saudáveis.
Segundo Carolina, o contato frequente com o ácido gástrico pode deixar o esmalte mais fino e expor camadas internas do dente, aumentando a sensibilidade do paciente ao consumir alimentos quentes, frios ou doces. Além disso, a progressão do desgaste também pode provocar mudanças no formato e na aparência da estrutura dentária.
A escovação imediatamente após o vômito também pode aumentar o desgaste, devido à fragilidade do esmalte após a exposição ao ácido. "É comum pensar que, depois de vomitar, o ideal é escovar os dentes imediatamente para limpar a boca. Mas, naquele momento, o esmalte está mais vulnerável", explica a dentista. De acordo com a especialista, a recomendação é enxaguar a boca com água para remover o ácido, evitando uma nova agressão mecânica à superfície dos dentes.
Sinais que chamam atenção no consultório
Para Carolina, o consultório odontológico também pode ser um ponto de atenção para a identificação de possíveis transtornos alimentares. Desgaste incomum do esmalte, principalmente na parte interna dos dentes superiores, boca seca e alterações na mucosa estão entre os principais sinais que podem chamar a atenção do profissional.
"O dentista não diagnostica um transtorno alimentar apenas observando os dentes, mas pode identificar um conjunto de sinais que foge do padrão. Quando encontramos uma erosão importante sem uma explicação compatível com a alimentação ou outros hábitos, precisamos investigar melhor, propor tratamentos e, por vezes, encaminhar o indivíduo para outros profissionais de saúde", comenta.
No caso da anorexia, a saúde bucal também pode ser afetada mesmo sem episódios de vômito. A restrição alimentar e as alterações nutricionais podem interferir na produção e na composição da saliva, favorecer alterações gengivais e aumentar a vulnerabilidade dos tecidos da boca. A profissional afirma que a subnutrição também pode elevar o risco de cárie e inflamação gengival, além de provocar alterações no pH e no fluxo salivar.
Para Carolina, embora o dentista possa tratar os danos provocados na boca, a abordagem não deve se limitar aos dentes. Ela afirma que o controle dos episódios de vômito e o tratamento do transtorno alimentar são essenciais para interromper a continuidade das agressões.
"O nosso papel é tratar e proteger a saúde bucal, mas também reconhecer quando aquele problema é mais complexo do que uma restauração", afirma Carolina. De acordo com a profissional, restaurar o esmalte ou controlar a sensibilidade sem tratar a causa significa apenas conter uma consequência do transtorno.