Transtorno dissociativo de identidade: o que é mito e o que diz a ciência
O transtorno dissociativo de identidade (TDI) vai além dos exageros de Hollywood. Na prática, as identidades alternativas são discretas, e o trauma na infância é a espinha dorsal do quadro. Entenda o que a ciência diz.
Transtorno dissociativo de identidade: o que é mito e o que diz a ciência
O transtorno dissociativo de identidade (TDI) é uma condição psiquiátrica descrita no DSM-5, caracterizada por duas ou mais identidades distintas que se alternam no controle da mesma pessoa. Diferente do cinema, as mudanças são discretas e egodistônicas, a pessoa não quer ter aquelas identidades. O principal consenso científico é que o TDI está associado a traumas graves e repetidos na infância, entre 5 e 8 anos.
O que é o TDI, segundo o DSM-5
Descrito no DSM-5, manual de referência da psiquiatria, o transtorno envolve rupturas na memória, na percepção de si e no comportamento. As identidades alternativas, os alters, podem ter maneiras próprias de falar, agir, lembrar e interpretar o mundo. "Algo imprescindível nesse quadro é a existência de uma lacuna de memória, onde uma identidade não lembra da outra", explica o psiquiatra Daniel Oliva, do Espaço Einstein de Bem-estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita.
Mitos do cinema versus realidade clínica
Na prática clínica, o transtorno raramente se parece com as versões exageradas popularizadas pelo cinema, como nos filmes Fragmentado (2016) e Vidro (2019), nos quais o personagem Kevin Wendell Crumb manifesta 23 personalidades distintas, com algumas violentas. A forma mais comum é a não possessiva, em que as mudanças são discretas e internas. "Geralmente são mais egodistônicas, ou seja, a pessoa não quer ter e, com isso, acaba aparecendo de uma maneira menos exuberante, mais tímida", relata Oliva.
Trauma na infância: a espinha dorsal do TDI
O principal consenso científico atualmente é de que o TDI está associado a traumas graves e repetidos na infância. Revisão publicada em 2025 na revista científica Frontiers in Psychiatry aponta que a maioria dos pacientes relata sintomas iniciais ainda entre os 5 e 8 anos de idade. "O trauma não é apenas um fator de risco, ele é a espinha dorsal do TDI", afirma a psicóloga Lidiane de Souza, professora da Universidade São Judas, em São Paulo. Estudo publicado em 2025 na Psychiatry Research, com participantes da Holanda e da Suíça, reforça essa relação: pessoas com TDI apresentavam níveis significativamente maiores de sintomas dissociativos, depressão, ansiedade, experiências traumáticas e distúrbios do sono em comparação ao grupo controle.
Diagnóstico e os desafios do subdiagnóstico
Diagnosticar o transtorno não é simples. O TDI pode ser confundido com condições psiquiátricas como esquizofrenia, transtorno de personalidade borderline, epilepsia do lobo temporal e transtorno factício. No entanto, o mais frequente é o subdiagnóstico, muitas vezes porque o paciente sente vergonha e realiza esforços persistentes para ocultar suas experiências internas.
Tratamento: psicoterapia e integração, sem medicação específica
O tratamento do TDI costuma ser longo e centrado em psicoterapia especializada em trauma, como terapia focada em fases, terapia cognitivo-comportamental adaptada, terapia de aceitação e compromisso, psicoterapia analítica funcional e EMDR. A prioridade inicial é estabilizar sintomas, criar segurança emocional e fortalecer o vínculo terapêutico. Com o tempo, o trabalho busca integração entre as identidades, embora isso nem sempre signifique "fusão completa". "Na prática do dia a dia, muitas vezes conseguimos uma integração sem fusão. Elas continuam coexistindo, mas de maneira cooperativa", explica Oliva. Não há medicação para tratar diretamente o transtorno. Antidepressivos e antipsicóticos podem ser receitados em caso de condições concomitantes, como depressão, transtorno de ansiedade, transtorno do estresse pós-traumático, impulsividade ou pensamentos de menos-valia.
Impacto na vida cotidiana
Os lapsos de memória são um dos sinais mais marcantes do TDI, e um dos mais incapacitantes. "As pessoas relatam se encontrar em lugares que não sabem como chegaram lá, ou ter objetos em posse que não reconhecem", relata Oliva. Essa descontinuidade afeta relacionamentos, trabalho e vida social. "Sem diagnóstico e psicoeducação adequados, isso leva a conflitos severos e ao isolamento social", afirma Souza.
Perguntas Frequentes
O TDI é o mesmo que esquizofrenia?
Não. O TDI é um transtorno dissociativo, enquanto a esquizofrenia é um transtorno psicótico. Eles podem ser confundidos, mas são condições diferentes.
Pessoa com TDI é perigosa?
Não. Pessoas com TDI são muito mais propensas a serem vítimas de novos abusos do que perpetradoras deles, segundo a psicóloga Lidiane de Souza.
Como saber se tenho TDI?
O diagnóstico é clínico, feito por psiquiatra ou psicólogo especializado. Não existe exame de sangue ou imagem para confirmar o transtorno.
O TDI tem cura?
Não há cura no sentido de desaparecimento completo, mas o tratamento pode levar a uma integração funcional das identidades, reduzindo o sofrimento.
Crianças podem ter TDI?
Sim. A maioria dos pacientes relata sintomas iniciais entre os 5 e 8 anos de idade, associados a traumas graves e repetidos.
O que causa o TDI?
O principal fator é o trauma grave e repetido na infância, como abusos físicos, sexuais, emocionais e ambientes cronicamente aterrorizantes.