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Rouquidão ou afta por mais de 15 dias? O aviso é sério

ResumoRouquidão ou afta persistindo por mais de 15 dias pode indicar câncer de cabeça e pescoço. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) projeta 17.190 novos casos de câncer oral e 8.510 de laringe por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Sinais persistentes exigem avaliação médica imediata para diagnóstico precoce.

Rouquidão ou afta que dura mais de 15 dias pode ser sinal de câncer de cabeça e pescoço. O Brasil deve registrar 17.190 novos casos de câncer oral e 8.510 de laringe por ano no triênio 2026-2028, segundo o Inca. Saiba quando procurar ajuda.

Marília Stefani
Marília Stefani Repórter de Segurança Pública · 20 de julho de 2026 · 5 min de leitura
Rouquidão ou afta por mais de 15 dias? O aviso é sério

Muitos pacientes ignoram uma rouquidão que não passa, uma afta que não cicatriza ou uma dor de garganta persistente como problemas passageiros. O risco é adiar a investigação de tumores de cabeça e pescoço, que seguem entre os tipos de câncer com maior mortalidade no Brasil, sobretudo porque costumam ser diagnosticados em estágio avançado.

O Brasil deve registrar, em média, 17.190 novos casos de câncer da cavidade oral e 8.510 casos de câncer de laringe por ano no triênio 2026-2028, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Esses tumores fazem parte de uma categoria mais ampla, que também inclui os de seios paranasais, fossas nasais, glândulas salivares, tireoide e pele da região.

Por que o diagnóstico costuma ser tardio?

Publicado em 2025 na revista The Lancet Regional Health - Americas, um estudo conduzido por pesquisadores do Inca analisou 145.365 casos de câncer de cabeça e pescoço registrados no Brasil entre 2000 e 2017. Constatou que 78,2% dos pacientes receberam o diagnóstico em estágios avançados da doença.

A pesquisa também revelou que pessoas com menor escolaridade e pacientes mais jovens apresentaram maior probabilidade de diagnóstico tardio. "São tumores com significativa mortalidade no Brasil, especialmente porque os pacientes já apresentam doença avançada ao diagnóstico. Por isso, o maior desafio é o diagnóstico precoce", enfatiza a oncologista Gabriela Chaves, coordenadora do Serviço de Oncologia no Mater Dei Contorno e no Mater Dei Betim-Contagem.

André Alencar Araripe Nunes, presidente da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), afirma que a principal dificuldade é que os primeiros sintomas costumam ser discretos e frequentemente negligenciados. "Quando esses sintomas permanecem por mais de duas semanas, é fundamental procurar avaliação médica, pois o diagnóstico precoce aumenta de maneira significativa as chances de cura e pode permitir tratamentos menos agressivos", ressalta.

Sintomas que merecem atenção

  • Rouquidão que dura mais de 15 dias
  • Feridas na boca ou na língua que não cicatrizam
  • Sangramentos na boca ou no nariz sem causa aparente
  • Dor de ouvido sem infecção identificada

Fatores de risco: além do tabaco e do álcool

André Alencar destaca que a maioria dos casos está associada a fatores evitáveis, como tabagismo, consumo excessivo de bebidas alcoólicas, infecção pelo HPV, especialmente nos tumores de orofaringe, exposição excessiva ao sol no caso do câncer de lábio, má higiene bucal e alimentação pobre em frutas e verduras. "É importante reforçar que a combinação entre cigarro e álcool potencializa o risco de desenvolvimento da doença."

Por décadas, o câncer de cabeça e pescoço teve um retrato bem definido: homens mais velhos, fumantes e alcoolistas de longa data. Esse cenário vem mudando. "Devido ao vírus HPV, vemos um aumento significativo de tumores na orofaringe, parte de trás da boca e garganta, em pacientes bem mais jovens, na faixa dos 40 a 50 anos, e muitas vezes sem nenhum histórico de tabagismo", diz o oncologista Bruno Favato Neto, também do Mater Dei.

Gabriela reforça que o tabagismo continua sendo o principal fator de risco, mas destaca a mesma mudança. "A gente tem visto cada vez mais, em pacientes até mais jovens, em pessoas que nunca fumaram e que nem bebem. E são tumores de orofaringe relacionados ao HPV."

Tratamento moderno: curar preservando funções

Nos últimos anos, o avanço mais significativo não foi apenas ampliar a sobrevida, mas também preservar funções essenciais, como fala e deglutição. "O grande foco da oncologia moderna é curar o paciente garantindo a sua qualidade de vida. Os maiores avanços vieram na precisão dos tratamentos. Hoje temos técnicas de radioterapia extremamente modernas e precisas, que atacam o tumor e poupam os tecidos saudáveis ao redor", explica Bruno.

Na oncologia clínica, ele destaca a imunoterapia como um divisor de águas. Associadas a cirurgias menos invasivas, essas terapias abrem espaço para os chamados protocolos de preservação de órgãos. "O uso da imunoterapia, medicamentos que estimulam o próprio sistema de defesa do corpo a combater o câncer, revolucionou o tratamento, aumentando a sobrevida com menos efeitos colaterais que a quimioterapia tradicional. Em muitos casos, conseguimos curar o paciente sem precisar retirar a laringe, preservando sua voz natural e a capacidade de se alimentar normalmente", afirma.

A escolha entre cirurgia, radioterapia e tratamento sistêmico nunca é feita isoladamente. "Os fatores que mais pesam são o estágio e o tamanho da doença, a localização exata do tumor, se ele é causado pelo HPV ou não, e as condições gerais de saúde do paciente", detalha.

Julho Verde: conscientização que salva vidas

O próximo dia 27 marca o Dia Mundial de Conscientização sobre o Câncer de Cabeça e Pescoço, que integra a campanha Julho Verde, voltada a chamar a atenção para sintomas que muitas vezes são confundidos com problemas comuns, como rouquidão, dor de garganta e aftas persistentes. campanha julho verde câncer cabeça pescoço

A prevenção se baseia principalmente em mudanças de hábitos, incluindo a vacinação para HPV. "É fundamental educar a população sobre sinais e sintomas de alerta para saberem quando procurar avaliação médica. O diagnóstico precoce aumenta as chances de cura", diz Gabriela.

Perguntas Frequentes

Quando devo me preocupar com uma rouquidão?

Se a rouquidão persistir por mais de 15 dias sem causa aparente, como gripe ou uso excessivo da voz, é recomendado procurar avaliação médica.

Afta que não cicatriza pode ser câncer?

Sim. Feridas na boca ou língua que não cicatrizam em até duas semanas são um dos principais sinais de alerta para tumores de cavidade oral.

Quem está mais sujeito ao câncer de cabeça e pescoço?

Historicamente, homens mais velhos, fumantes e alcoolistas. Mas o HPV tem elevado a incidência em pacientes mais jovens, entre 40 e 50 anos, sem esses fatores.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico envolve exame clínico, laringoscopia, endoscopia e biópsia da lesão suspeita. Quanto mais cedo, maiores as chances de tratamento conservador.

O tratamento sempre exige cirurgia?

Não. Dependendo do estágio, localização e tipo de tumor, a combinação de radioterapia, quimioterapia e imunoterapia pode curar sem necessidade de cirurgia mutiladora.

A vacina contra HPV previne esse tipo de câncer?

Sim. A vacinação contra o HPV é uma das principais medidas preventivas, especialmente contra tumores de orofaringe relacionados ao vírus.

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