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Minerais críticos: gargalo bilionário pode travar transição energética

ResumoO relatório do Fórum Econômico Mundial (WEF) de maio de 2026 identifica um gargalo de US$ 250 bilhões em investimentos para minerais críticos até 2030. A escassez não é geológica, mas financeira, agravada pela concentração da China no refino. O déficit ameaça travar a transição energética global.

Relatório do Fórum Econômico Mundial (WEF) de maio de 2026 aponta que a escassez de minerais críticos para a transição energética não é geológica, mas financeira. Há um déficit de US$ 250 bilhões em investimentos até 2030, e a concentração da China no refino agrava o risco. O doc

Marília Stefani
Marília Stefani Repórter de Segurança Pública · 29 de julho de 2026 · 7 min de leitura
Minerais críticos: gargalo bilionário pode travar transição energética

A transição energética global enfrenta um gargalo que não está no subsolo, mas nos balanços de bancos e fundos de investimento. Um relatório do Fórum Econômico Mundial (WEF), publicado em maio de 2026 em colaboração com o Centro de Política Energética Global da Universidade Columbia, aponta que a escassez de minerais críticos como cobre, lítio e terras-raras é financeira, não geológica. O documento, intitulado "Making Critical Minerals Bankable: Policy Tools to Unlock Investment", revela que o mundo tem reservas suficientes, mas falta capital disposto a tirá-las do solo.

A escassez de minerais críticos como cobre, lítio e terras-raras não é geológica, mas financeira, segundo relatório do Fórum Econômico Mundial de maio de 2026. O déficit de investimentos chega a US$ 250 bilhões até 2030, e a concentração da China no refino (91% das terras-raras refinadas) agrava o risco. O documento propõe seis instrumentos de política pública para destravar capital privado.

O paradoxo financeiro dos minerais críticos

O relatório do WEF coloca no centro do debate a chamada "bankability gap", a lacuna de financiabilidade. Muitos projetos existem no papel, são tecnicamente viáveis e estrategicamente urgentes, mas não conseguem reunir as condições mínimas exigidas pelo capital privado convencional. O cobre é o exemplo mais eloquente: apesar de a Agência Internacional de Energia (AIE) projetar um déficit de oferta de 30% até 2035, os investimentos necessários para fechar essa lacuna não estão chegando. Segundo o relatório, há uma diferença de US$ 250 bilhões entre o capital necessário e o comprometido até 2030. O crescimento dos investimentos no setor, que chegou a 14% em 2023, desacelerou para apenas 5% em 2024.

Não é que os investidores desconheçam a oportunidade. É que, quando calculam o risco, longos prazos de licenciamento, custos iniciais elevadíssimos, incerteza regulatória, volatilidade de preços e a complexidade de operar em jurisdições instáveis, os retornos ajustados ao risco simplesmente não convencem os comitês de investimento dos grandes fundos e bancos.

Mercados diferentes, riscos diferentes

Um dos argumentos mais importantes do documento é também o mais contraintuitivo: minerais críticos não formam um mercado único. Tratar todos da mesma forma é uma das principais razões pelas quais as políticas públicas têm falhado.

O cobre é negociado na London Metal Exchange desde 1877, com contratos futuros padronizados, liquidez profunda e uma base ampla de investidores institucionais. O grafite, por outro lado, não tem benchmark internacional estabelecido, cada contrato é bilateral, negociado por especificação técnica de pureza, tamanho de partícula e revestimento. Para um banco, financiar um projeto de grafite é como financiar uma empresa de manufatura especializada, não uma mineradora.

O lítio vive um meio-termo turbulento: ganhou alguma transparência de preço nos últimos anos, com contratos futuros na CME e na bolsa de Guangzhou, mas ainda é dominado por ciclos violentos de expansão e colapso. A alta de 2022 seguida pelo tombo de 2023 atrapalhou dezenas de projetos e afastou financiadores. As terras-raras, por sua vez, operam em um regime quase opaco, com preços bilaterais e sem mercados futuros funcionais, tornando a receita de qualquer projeto virtualmente impossível de ser modelada com confiança por um credor.

A concentração chinesa como alavanca geopolítica

Atravessando todos esses mercados, há uma variável comum que amplifica todos os riscos: a concentração da China nas etapas de refino e processamento. Os números do relatório são impressionantes. Em 2024, a China respondeu por 91% da produção mundial de terras-raras refinadas, 96% do antimônio, 95% do tungstênio, 85% do índio e 99% do gálio primário. No grafite, mais de 90% da capacidade de produção de ânodos para baterias está concentrada no país.

Essa concentração não é apenas um dado econômico, é uma alavanca geopolítica. O relatório lembra que restrições de exportação de gálio e germânio foram implementadas pela China em 2023 e 2024, e que mudanças nas regras de licenciamento de exportação têm sido usadas para pressionar parceiros comerciais. Para qualquer projeto fora da China que dependa desses minerais, a simples possibilidade de um embargo ou restrição já eleva o prêmio de risco a ponto de afastar financiadores.

Seis instrumentos para destravar o capital

O relatório não se limita a diagnosticar o problema. Ele propõe uma arquitetura de seis categorias de instrumentos de política pública, cada uma voltada a um tipo específico de obstáculo:

  1. Mecanismos de suporte a capital inicial: grants, empréstimos concessionais e garantias governamentais para cobrir o período de exploração e construção, quando o risco é máximo e não há fluxo de caixa para servir dívida.
  1. Âncoras de demanda: acordos de compra de longo prazo firmados por governos, que garantem receita futura e dão ao projeto a credibilidade que um credor precisa para financiá-lo.
  1. Mecanismos de estabilização de receita: contratos por diferença que estabelecem um preço-piso para o mineral e protegem o produtor de colapsos de mercado. O caso mais citado no relatório é o acordo fechado em 2025 entre o Departamento de Defesa dos EUA e a MP Materials, com garantia de preço mínimo de US$ 110/kg para terras-raras. O resultado foi imediato: a JP Morgan e Goldman Sachs comprometeram US$ 1 bilhão para financiar a expansão da planta de processamento.
  1. Mitigação de risco político: seguros contra expropriação, garantias de completude e mecanismos de cobertura cambial para projetos em países instáveis. O caso paradigmático é a mina de cobre Oyu Tolgoi, na Mongólia, onde a agência de garantias do Banco Mundial (MIGA) forneceu US$ 1 bilhão em garantias para um consórcio de 15 bancos, destravando um pacote de financiamento de US$ 4,4 bilhões.
  1. Habilitadores estruturais: reforma dos processos de licenciamento, investimento público em infraestrutura compartilhada e geociência pública. A Austrália oferece um exemplo prático com o estado de Queensland, que criou uma instalação de processamento de uso compartilhado em Townsville, permitindo que mineradoras de pequeno porte testem processos sem arcar individualmente com os custos de infraestrutura.
  1. Mecanismos fiscais: créditos tributários sobre produção ou investimento, depreciação acelerada e reduções de royalties. A lei americana IRA, por exemplo, oferece crédito de 10% sobre a produção doméstica qualificada de minerais críticos refinados.

Precisão cirúrgica, não volume

O relatório é enfático em um ponto que contraria a tendência de criar grandes fundos e programas genéricos: o que funciona não é o volume de recursos públicos, mas a precisão cirúrgica de sua aplicação. Um programa amplo de subsídios aplicado indiferentemente ao cobre, ao grafite e ao gálio tende a desperdiçar recursos, distorcer mercados e, paradoxalmente, afastar o capital privado em vez de atraí-lo. O que destrava investimento é identificar o gargalo específico, seja o risco político, a falta de offtake, a volatilidade de preço ou a opacidade do mercado, e aplicar o instrumento certo, no momento certo do ciclo de vida do projeto.

O documento deixa claro que o objetivo do dinheiro público não deve ser substituir o capital privado, mas catalisá-lo. Cada instrumento bem calibrado deve ser projetado para se tornar desnecessário à medida que o projeto amadurece e os riscos diminuem.

A escala do desafio é monumental. O fornecimento global de lítio precisará quadruplicar até 2040 para atender à demanda de veículos elétricos e armazenamento de energia. Paralelamente, o cobre demandará mais de US$ 200 bilhões na próxima década. Sem uma abordagem cirúrgica de política pública, o gargalo financeiro pode, de fato, travar a transição energética.

Perguntas Frequentes

O que é a "bankability gap"?

É a lacuna de financiabilidade que impede projetos de minerais críticos tecnicamente viáveis de obter capital privado, devido a riscos como volatilidade de preços e incerteza regulatória.

Por que a concentração da China no refino é um problema?

Porque, em 2024, a China respondeu por 91% das terras-raras refinadas e 99% do gálio primário, o que lhe dá alavancagem geopolítica para impor restrições de exportação, elevando o risco de projetos fora do país.

Qual a diferença entre financiar cobre e grafite?

O cobre tem mercado futuro padronizado na London Metal Exchange desde 1877, enquanto o grafite não tem benchmark internacional, sendo negociado por especificação técnica bilateral, o que torna o financiamento mais complexo.

Como o governo dos EUA destravou investimento em terras-raras?

Em 2025, o Departamento de Defesa dos EUA garantiu um preço mínimo de US$ 110/kg para terras-raras da MP Materials, o que levou JP Morgan e Goldman Sachs a comprometerem US$ 1 bilhão para expansão da planta.

Qual o papel do dinheiro público segundo o relatório?

O dinheiro público deve catalisar o capital privado, não substituí-lo, aplicando instrumentos específicos para gargalos específicos, como garantias de preço mínimo ou seguros contra risco político.

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