# Mercurocromo: o remédio tóxico que todo mundo usava em machucados

> Mercurocromo foi um antisséptico vermelho amplamente usado em ferimentos até ser proibido pela Anvisa há 25 anos devido à toxicidade do mercúrio em sua composição. Especialistas afirmam que água e sabão são mais eficazes e seguros para limpar machucados, tornando o produto obsoleto e perigoso para a saúde.

*Portal Notícias MG · Serviços · 29 de julho de 2026 · Inácio Bicalho*

Mercurocromo foi o antisséptico vermelho que ardia nos joelhos ralados de gerações. Proibido pela Anvisa há 25 anos por conter mercúrio, o remédio deixou saudade, mas especialistas explicam que água e sabão são mais eficazes e seguros.

## Mercurocromo: o remédio tóxico que quase todo mundo usava para machucados de crianças

Quem foi criança na segunda metade do século 20 no Brasil lembra bem: ralar os joelhos na bola significava passar pela tortura de uma espátula plástica raspando no machucado com um remédio vermelho que ardia. Esse era o mercurocromo, nome popular do mercúrio cromo, um antisséptico tópico que dominou os lares brasileiros.

**O mercurocromo foi proibido no Brasil há 25 anos por resolução da Anvisa, por conter mercúrio na fórmula. Apesar de não representar risco direto em uso pontual, a medida foi preventiva, baseada em estudos de segurança e na existência de alternativas sem mercúrio. Hoje, especialistas recomendam apenas água e sabão para limpar machucados.**

## Por que o mercurocromo sumiu das farmácias?

O remédio desapareceu das prateleiras do país quando uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a produção e venda desse tipo de produto. O motivo: havia mercúrio na fórmula. "O mercurocromo original tinha como princípio ativo a merbromina, que é um composto organomercurial", explica o químico Adriano Andricopulo, professor da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Brasileira de Ciências.

"Portanto, ele realmente continha mercúrio, mas não na forma de mercúrio metálico solto, como nos antigos termômetros. O mercúrio fazia parte da própria estrutura química da molécula", detalha.

O professor afirma que a decisão da Anvisa fazia parte de uma política de redução da exposição da população ao mercúrio. "A preocupação era especialmente importante quando o produto era aplicado repetidamente ou sobre áreas extensas de pele lesionada, situação em que poderia haver maior absorção."

## O mercurocromo era perigoso para quem usou?

Andricopulo ressalta que quem usou mercúrio em um machucado não precisa se preocupar. O contato por si só não significa exposição à intoxicação. Na época, a própria Anvisa explicou que o problema principal era reduzir fontes desnecessárias e cumulativas de exposição. A decisão técnica foi uma medida preventiva, baseada em estudos da relação entre "benefício, eficácia e segurança". Além disso, já existiam alternativas sem mercúrio.

A pediatra Giulia Lima, pesquisadora no Boston Children's Hospital, nos Estados Unidos, diz que nunca foi comprovado que o uso dessas substâncias prevenia infecções. Ela acrescenta que a tintura vermelha, ao cobrir o machucado, dificultava a inspeção visual de possíveis complicações.

## Como o mercurocromo foi inventado e por que virou febre?

O mercurocromo foi desenvolvido nos Estados Unidos em 1919. Seu nome oficial é merbromina e a solução aplicada nos machucados geralmente era uma diluição de 2% do composto, à base de mercúrio, em 98% de álcool (daí o ardor) ou água.

O cientista creditado como inventor é o norte-americano Hugh Hampton Young (1870-1945). Cirurgião e pesquisador, ele lecionava na Universidade Johns Hopkins, em Maryland. Foi nessa instituição que, com sua equipe, descobriu as propriedades antissépticas da merbromina.

"É importante lembrar que isso ocorreu antes da descoberta da penicilina [em 1928] e muito antes dos antibióticos modernos. Naquela época, prevenir infecções em pequenos ferimentos era um enorme desafio, e a merbromina representou uma inovação importante", contextualiza Andricopulo.

## O que a medicina recomenda hoje para machucados?

A partir dos anos 1990, o uso do mercurocromo passou a ser questionado. A medicina entendeu que havia soluções mais eficientes, como água e sabão.

Em artigo publicado em 2011, o médico Drauzio Varella recorda que sua avó era adepta do ditado "o que arde cura". Mas ele escreve: "Sem querer menosprezar a sabedoria da avó de ninguém, é preciso dizer que, apesar de serem mulheres prendadas, nossas vovós não entendiam nada de bacteriologia." Varella explica que as bactérias mais agressivas podiam crescer dentro do vidro da solução de mercúrio, e a pazinha plástica pincelava um machucado e trazia bactérias para o frasco.

"A conduta atual diante de esfolamentos, arranhões, cortes superficiais ou profundos pode ser resumida em duas palavras: água e sabão! E mais nada", escreveu Varella.

O pediatra infectologista Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Pediatria, corrobora: "Água e sabão se mostraram muitas vezes tão efetivos quanto esses antissépticos locais. Percebemos que não faz muito sentido usar nenhuma substância porque existem potenciais de irritação."

Andricopulo acrescenta que antissépticos fortes podem lesar células importantes para a cicatrização e retardar o reparo da pele. "A medicina evoluiu de uma abordagem centrada em desinfetar para uma abordagem baseada em limpar adequadamente a ferida e preservar o processo natural de cicatrização."

## O mercurocromo pode contaminar o meio ambiente?

Os riscos de intoxicação individual nunca foram um problema significativo, a não ser que uma criança ingerisse acidentalmente o conteúdo de um frasco. Andricopulo diz que apenas exposições a níveis muito altos da substância podem afetar rins e sistema nervoso.

Mas passou-se a considerar o potencial cumulativo do mercúrio no meio ambiente. "Descartes de remédios com mercúrio podiam contaminar terra, água e outros animais, aumentando a concentração do mercúrio no ambiente, que poderia retornar ao ser humano em forma de alimento", pontua Lima. "Não fazia sentido manter."

Em 1998, a entidade norte-americana Food and Drug Administration (FDA) reclassificou o mercurocromo como substância não mais considerada de uso seguro. Pouco tempo depois, o medicamento foi banido nos Estados Unidos. Outros países adotaram parâmetros semelhantes.

"A proibição no Brasil seguiu determinações da Organização Mundial de Saúde", afirma a bióloga Ionara Rodrigues Siqueira, professora de farmacologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A OMS entendia o problema como algo mais coletivo do que individual, uma estratégia tanto de proteção do indivíduo quanto do ambiente, já que o mercúrio pode ser bioacumulado na cadeia alimentar.

## O que ficou na memória

Com a proibição, restou apenas a lembrança "do carinho e do assopro dos pais para aliviar o ardido", comenta o farmacêutico Fabio Leonardo Mora, autor do projeto Farmacêutico das Antigas. "Essas soluções marcaram gerações, nos pátios de escola e nos cuidados."

Hoje, quando vejo uma criança ralar o joelho, penso na minha avó com o vidro vermelho. Mas a ciência avançou: água e sabão bastam. O interior também é Minas, e a seca não é notícia só quando vira tragédia, às vezes, a lição vem de um frasco que sumiu.

## Perguntas Frequentes

### O mercurocromo é o mesmo que mercúrio cromo?

Sim. Mercurocromo e mercúrio cromo são nomes populares para a merbromina, um composto organomercurial.

### Quem usou mercurocromo na infância corre risco?

Não. O contato por si só não significa exposição à intoxicação, segundo o químico Adriano Andricopulo, da USP.

### Por que a Anvisa proibiu o mercurocromo?

A Anvisa proibiu por medida preventiva, para reduzir a exposição cumulativa da população ao mercúrio, seguindo diretrizes da OMS.

### Qual a melhor forma de limpar um machucado hoje?

Água e sabão são suficientes para a maioria dos arranhões e cortes superficiais, conforme recomendam especialistas como o pediatra Renato Kfouri.

### O mercurocromo ainda é vendido em outros países?

Não. Foi banido nos Estados Unidos após reclassificação da FDA em 1998, e outros países adotaram medidas semelhantes.

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Fonte (canonical): https://portalnoticiasmg.com.br/servicos/mercurocromo-remedio-toxico-quase-todo-mundo-usava-machucados-criancas/
