Bolsa de histórias de Ursula K. Le Guin: leia antes de escrever
Em A teoria da bolsa de ficção, Ursula K. Le Guin (1929-2018) propõe revisão radical da narrativa humana. Com tradução de Isabel Diegues, ensaio de 1986 ganha reedição da Cobogó, 64 páginas, R$ 58.
Antes de escrever, Ursula K. Le Guin (1929-2018) sugere ler contra a corrente. Em "A teoria da bolsa de ficção", ensaio de 1986 que ganha reedição da editora Cobogó, a autora de "A mão esquerda da escuridão" questiona a narrativa dominante da evolução humana e da própria criação de histórias. São 64 páginas, com tradução de Isabel Diegues, ao preço de R$ 58,00.
A base do argumento é um dado: na pré-história, a alimentação humana era composta majoritariamente por vegetais, raízes, frutas e pequenos animais. As narrativas que se impuseram, porém, são masculinas e centradas em caçadas, lanças e mamutes. Contra esse modelo, Le Guin recupera a teoria da antropóloga Elizabeth Fisher: a tecnologia mais antiga e humana não é a arma, mas o recipiente, a bolsa, a cesta que carrega o colhido.
Se o recipiente precede a arma, a narrativa que representa a experiência humana não é a da conquista linear, com herói vitorioso, mas a da bolsa: espaço onde coisas diferentes convivem sem dominar umas às outras. A rejeição à arma surge em oposição a "2001: uma odisseia no espaço", de Arthur C. Clarke e Stanley Kubrick, cânon que ela batiza de "tecno-heroico".
A edição da Cobogó traz ainda dois ensaios: "Quando Le Guin encontra Kubrick", da escritora Carola Saavedra, autora de "Flores azuis" (Cia. das Letras), e "Recebendo três mochilas na Colômbia: bolsas para seguirmos juntos com o problema", da filósofa Donna Haraway.
Para quem escreve, a leitura funciona como antídoto à fórmula de conflito obrigatório. Em vez de perguntar qual será o clímax, Le Guin convida a pensar o que cabe na bolsa, que relações se sustentam lado a lado. Uma mudança de pergunta que altera o texto desde a primeira linha.