Itamaraty alertou Casa Rosada sobre 'linha vermelha' em discursos de Milei
Muito antes do discurso polêmico de Javier Milei no PL, o Itamaraty já havia alertado a Casa Rosada sobre 'linhas vermelhas' a não serem cruzadas. Ofensas pessoais a Lula ou a outros atores políticos em território brasileiro eram o limite para evitar crise diplomática.
A diplomacia brasileira agiu nos bastidores para tentar conter a retórica do presidente argentino Javier Milei. Muito antes do discurso na convenção nacional do PL, o Itamaraty já havia levado alertas à Casa Rosada sobre "linhas vermelhas" que não deveriam ser cruzadas. A informação é de interlocutores da diplomacia brasileira.
A principal mensagem era clara: ofensas pessoais ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou a outros atores políticos, especialmente em território brasileiro, faziam parte da "risca no chão" que não poderia ser ultrapassada. O objetivo era evitar uma crise diplomática entre os dois países.
O que o Itamaraty tolerava nas falas de Milei?
Mesmo sem uma lista explícita de condutas aceitáveis, ficou implícito que certos posicionamentos seriam tolerados. Entre eles: defesa da liberdade de expressão e do livre mercado, críticas à esquerda e aos riscos do socialismo, gestos de apoio ou declarações favoráveis à direita no Brasil.
Por meio de interlocutores, o Itamaraty fez essas mensagens chegarem a Milei às vésperas da CPAC, evento conservador realizado em Florianópolis em 2024. Na ocasião, o libertário fez um discurso com críticas ao socialismo, mas não mencionou Lula. Ele também se encontrou com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que ainda não havia sido condenado pelo STF.
O alívio temporário e a volta do embaixador
Houve relativo alívio na diplomacia brasileira, que monitorava a retórica de Milei e se preparava para uma eventual crise. O embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, chegou a ser chamado para consultas, mas retornou pouco depois à capital argentina.
Apesar do distanciamento entre Lula e Milei, a avaliação do Itamaraty é de que as relações econômicas e comerciais foram preservadas em um contexto politicamente adverso. Até mesmo os contatos oficiais tiveram continuidade, como nas recentes visitas dos ministros da Defesa, José Múcio Monteiro, e da Agricultura, André de Paula, a Buenos Aires.
O discurso que ultrapassou o limite
Agora, porém, a fala de Milei na convenção do PL que confirmou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência ultrapassou o limite do que era considerado tolerável pelo governo brasileiro. O presidente argentino chamou Lula de "presidiário" e o ministro Alexandre de Moraes, do STF, de "lixo careca".
O embaixador Julio Bitelli foi chamado novamente a Brasília, mas desta vez sem passagem de volta para Buenos Aires, o que indica a gravidade da crise diplomática. O retorno do diplomata à capital argentina deve ser discutido nesta quarta-feira (29), em conversa com o chanceler Mauro Vieira.
Os próximos passos da diplomacia
A reunião deve tratar de eventuais reações caso Milei volte a fazer novos ataques. O presidente Lula não deve responder pessoalmente ao líder argentino, mas a diplomacia brasileira poderá fazer novas manifestações.
Integrantes do Itamaraty, contudo, afirmam que há um esforço para preservar a relação bilateral, apesar do distanciamento entre os dois presidentes. A avaliação é de que é importante manter os canais de diálogo com o empresariado, a indústria, as universidades e os governos das províncias argentinas.
Perguntas Frequentes
O que foi considerado 'linha vermelha' pelo Itamaraty?
Ofensas pessoais ao presidente Lula ou a outros atores políticos, especialmente em território brasileiro, eram o limite para evitar crise diplomática.
O que o Itamaraty tolerava nos discursos de Milei?
Críticas à esquerda e ao socialismo, defesa da liberdade de expressão e do livre mercado, e gestos de apoio à direita brasileira eram tolerados.
Quando o Itamaraty fez os primeiros alertas?
Às vésperas da CPAC, evento conservador realizado em Florianópolis em 2024.
O que Milei disse para gerar a crise atual?
Chamou Lula de 'presidiário' e o ministro Alexandre de Moraes de 'lixo careca' na convenção do PL.
O embaixador brasileiro voltou a Brasília?
Sim, Julio Bitelli foi chamado novamente, desta vez sem passagem de volta para Buenos Aires.
O presidente Lula vai responder a Milei?
Não. Lula não deve responder pessoalmente, mas a diplomacia brasileira poderá fazer novas manifestações.