IEF solicita ao MPMG aumento de visitantes no Parque do Ibitipoca
O IEF enviou ao Ministério Público de Minas Gerais uma proposta para aumentar o limite diário de visitantes do Parque Estadual do Ibitipoca de mil para 1,2 mil. A decisão depende de análise técnica da CEAT. Entenda o caso.
Maria das Graças, moradora de Lima Duarte, conta que nos fins de semana o movimento na portaria do Parque Estadual do Ibitipoca já forma fila. "A gente vê carro estacionado longe, e muita gente esperando para entrar. Se aumentar mais, vai ficar complicado", afirma. O relato dela reflete o debate que agora chega ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG).
O Instituto Estadual de Florestas (IEF) protocolou um pedido para elevar o limite diário de visitantes de mil para 1,2 mil pessoas, um aumento de 20%. A proposta foi enviada ao MPMG, que solicitou uma análise técnica da Coordenadoria Estadual de Apoio Técnico (CEAT) para verificar se a Unidade de Conservação (UC) suporta a mudança sem comprometer a preservação ambiental, as condições de manejo e a infraestrutura do parque.
Por que o IEF pediu o aumento de visitantes?
O pedido do IEF, conforme consta no processo administrativo ao qual a Tribuna teve acesso, foi apresentado com base em estudos técnicos e na avaliação de indicadores ambientais e operacionais da unidade de conservação. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente, a Secretaria Municipal de Turismo e o Departamento Municipal de Água e Esgoto (Demae) de Lima Duarte manifestaram-se favoráveis à ampliação, desde que haja monitoramento permanente dos impactos ambientais e da infraestrutura local.
O que o MPMG analisa antes de decidir?
O despacho que determinou o envio do caso à CEAT destaca que o estudo de capacidade de carga que fundamenta o limite atual de visitação foi elaborado em 2014, como adendo ao Plano de Manejo do parque. Diante disso, o MPMG considera necessária uma avaliação técnica atualizada sobre a capacidade de suporte ambiental, operacional e de manejo da unidade antes de deliberar sobre o pedido do IEF.
A análise deverá considerar, entre outros aspectos:
- se o estudo de 2014 permanece tecnicamente adequado;
- a necessidade de novos levantamentos;
- os impactos ambientais decorrentes da visitação;
- as condições de infraestrutura e manejo da unidade;
- eventuais condicionantes ambientais para uma possível ampliação;
- medidas adicionais de monitoramento para garantir a compatibilização entre uso público e preservação.
O MPMG consultou a CEAT a pedido da reportagem sobre a atual fase do processo, mas não teve retorno até a publicação desta matéria.
O que diz o estudo de 2014 sobre a capacidade de carga?
Responsável pelo estudo de capacidade de carga que embasou a definição do limite atual de mil visitantes por dia, o professor e pesquisador da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Cezar Barra, explica que o trabalho desenvolvido em 2014 utilizou uma metodologia adaptada pelo Núcleo de Análise Geoambiental (NAGEA/UFJF), a partir de um modelo criado pelo pesquisador Miguel Cifuentes, da Costa Rica.
Segundo ele, além de calcular o fluxo de visitantes nas trilhas, o estudo incorporou fatores de correção relacionados às características ambientais do parque, como relevo, drenagem, processos erosivos e acessibilidade. A metodologia calcula inicialmente a Capacidade de Carga Física (CCF), que, segundo Barra, "é geralmente exagerada". A partir desse resultado, são aplicados fatores de correção para chegar a uma capacidade compatível com as condições reais da unidade.
Ampliação é viável? Pesquisador da UFJF diz que não
Na opinião de Barra, a medida de ampliação do número de visitantes não seria viável no atual contexto do parque. Ele afirma que, para tomar essa decisão, é necessário que o estudo utilizado contemple as características ambientais específicas de Ibitipoca, como o relevo acidentado, a geologia de quartzito e os processos erosivos naturais.
"O aumento do fluxo turístico poderá potencializar esses riscos em um parque singular, com muitas fragilidades. Não dá para fazer em Ibitipoca o que fazem em Foz do Iguaçu. São parques com características diferentes", afirma.
O pesquisador também destaca que a unidade de conservação apresenta riscos naturais, como possibilidade de queda de blocos rochosos, enxurradas repentinas em cachoeiras e incidência de descargas atmosféricas, fatores que, segundo ele, devem ser considerados em qualquer discussão sobre ampliação da visitação. "Faltam corrimões e escadas em alguns locais de acessibilidade ruim. Não existem abrigos ao longo das trilhas para as pessoas se protegerem de raios, por exemplo. Se algum turista for mordido por cobras, só terá atendimento no HPS em Juiz de Fora (a cerca de 100 quilômetros do parque)."
Estudo do Serviço Geológico aponta 29 pontos de vulnerabilidade
O professor ainda cita o estudo do Serviço Geológico do Brasil (SGB), divulgado neste ano, que identificou 29 pontos de vulnerabilidade geológica no Parque Estadual do Ibitipoca e recomendou a interdição do Lago das Miragens devido ao risco de queda de blocos rochosos oriundos do Paredão de Santo Antônio. Na ocasião, o IEF optou por manter o atrativo aberto, informando que a área permaneceria sob monitoramento.
O que dizem o IEF e a concessionária?
A Tribuna solicitou posicionamento ao Instituto Estadual de Florestas (IEF) sobre os fatores que motivaram o pedido de aumento e os estudos que embasam a proposta, mas não teve resposta até o fechamento da edição. A reportagem também procurou a Parquetur, concessionária responsável pela administração do Parque Estadual do Ibitipoca, para comentar a proposta, mas, até o fechamento desta edição, não houve retorno.
Perguntas Frequentes
O IEF já solicitou o aumento de visitantes no Parque do Ibitipoca?
Sim. O Instituto Estadual de Florestas (IEF) enviou ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) uma proposta para elevar o limite diário de visitantes de mil para 1,2 mil pessoas.
Qual é o novo limite proposto para o Parque do Ibitipoca?
O IEF propõe um aumento de 20%, passando o limite diário de mil para 1,2 mil visitantes.
Quando o MPMG deve decidir sobre o aumento?
A decisão depende de uma análise técnica da Coordenadoria Estadual de Apoio Técnico (CEAT), solicitada pelo MPMG. O órgão ainda não divulgou prazo para conclusão.
O que diz o estudo de capacidade de carga de 2014?
Elaborado pelo professor Cezar Barra, da UFJF, o estudo de 2014 calculou a capacidade de carga do parque com base em fatores como relevo, drenagem e processos erosivos, resultando no limite atual de mil visitantes por dia.
O pesquisador da UFJF é contra o aumento?
Sim. Cezar Barra afirma que a ampliação não seria viável no atual contexto do parque, devido a riscos ambientais e de segurança, como queda de blocos e falta de infraestrutura.
O serviço Geológico identificou riscos no parque?
Sim. Um estudo do Serviço Geológico do Brasil (SGB) identificou 29 pontos de vulnerabilidade geológica e recomendou a interdição do Lago das Miragens por risco de queda de blocos.