Formigas raras vendidas na internet geram preocupação
Milhares de formigas raras são vendidas na internet e geram preocupação. No Quênia, apreensões viraram prova em tribunais. Entenda o comércio e os riscos.
Formigas raras são vendidas na internet e geram preocupação
Desde 2025, tribunais do Quênia recebem provas pouco comuns: milhares de formigas dentro de pequenas cápsulas. Apreensões desse tipo viraram peça em diversos processos. Funcionários da autoridade de proteção à vida selvagem encontraram os insetos durante inspeções de bagagem. Em vários casos, os agentes identificaram milhares de exemplares da espécie Messor cephalotes, a formiga-colheitadeira-gigante-africana. O valor de mercado de uma rainha ultrapassa os 200 euros, cerca de R$ 1,2 mil.
Formigas raras são vendidas na internet e geram preocupação porque o comércio online de animais silvestres cresce em plataformas amplamente usadas. A exportação de animais silvestres é proibida no Quênia. Mesmo assim, as formigas saem do país em bagagem de mão ou pelo correio.
Por que as formigas raras são vendidas na internet
Na Europa, há uma tendência, especialmente entre os jovens, de criar formigas como animais de estimação. Elas vivem em terrários de vidro, onde a rainha gera descendentes e dá origem a uma nova colônia. O hobby exige poucos cuidados, como explica Michael Meier, que prefere não ser identificado pelo nome verdadeiro.
"No caso das formigas, não faz muita diferença se eu as alimento hoje ou amanhã", diz Meier, que já manteve quase 30 colônias em um quarto preparado para elas. Hoje, restam apenas quatro. Ele admite que os gêneros exóticos são considerados "atraentes" porque não entram em dormência no inverno. "Assim, é possível observar os animais o ano inteiro."
Nos sites de inúmeras lojas virtuais, é possível encomendar formigas pelo correio com poucos cliques. "Formigas africanas" é uma das categorias usadas para atrair criadores. Entre as espécies ofertadas está a formiga-colheitadeira-gigante-africana, já apreendida diversas vezes no aeroporto do Quênia.
O caso do Quênia: apreensões e condenações
A autoridade de proteção à vida selvagem do Quênia interceptou, no ano passado, quatro homens que se autodenominavam "gangue das formigas". Entre eles estavam dois belgas de 19 anos que pretendiam contrabandear 5,5 mil rainhas para a Europa. Eles foram condenados a pagar multas de 5 mil euros, cerca de R$ 29 mil.
Em abril passado, um cidadão chinês que tentava exportar formigas foi condenado a um ano de prisão por biopirataria. Foi o segundo caso envolvendo formigas em menos de um ano. A juíza declarou que, diante do aumento do contrabando e dos impactos ecológicos, a pena deveria ter efeito dissuasório.
O pesquisador de insetos Dino Martins é frequentemente chamado aos aeroportos nesses casos. "Fiquei chocado", diz ele. "Não apenas pela quantidade impressionante de formigas, mas também porque se tratavam de rainhas." Martins, que dirigiu diferentes institutos de pesquisa no Quênia, é considerado um dos principais especialistas em formigas da África.
O impacto ecológico da captura de rainhas
Segundo Martins, os animais apreendidos eram rainhas jovens retiradas de seus ninhos subterrâneos. Essas rainhas possuem asas para realizar o voo de dispersão e fundar novas colônias. "Quando se recolhem rainhas nesse momento crítico, interrompe-se uma etapa central para o surgimento de novas colônias."
O ecossistema do Quênia também é prejudicado. As formigas transportam sementes de gramíneas, contribuindo para a regeneração da cobertura vegetal da savana. A formiga-colheitadeira-gigante-africana é parte importante do ecossistema da África Oriental.
O comércio online de animais silvestres cresce
Russell Gray, que investigou o tema para a Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), afirma que o comércio online de animais silvestres cresce significativamente. "A principal conclusão é que isso deixou de ser um problema marginal escondido em sites obscuros", diz Gray. "Hoje vemos esse comércio ocorrer em plataformas amplamente utilizadas, como o Facebook."
No ano passado, a equipe de Gray analisou mais de 60 plataformas e encontrou 266 mil anúncios de venda de animais silvestres. O valor somado chega a cerca de 66 milhões de dólares, aproximadamente R$ 336 milhões. Insetos nem foram incluídos no levantamento. "Se considerássemos todo o comércio online de animais silvestres, provavelmente chegaríamos a um volume de bilhões de dólares", argumenta Gray.
O risco do crime organizado e a falta de regulação
O biólogo Chris Shepherd, do Centro para Diversidade Biológica, acompanha a situação com preocupação. Segundo ele, os casos no Quênia mostram que o retorno financeiro é elevado, "mas o risco é significativamente menor" em comparação com outras formas de criminalidade, como o tráfico de drogas.
Assim que espécies raras alcançam preços altos, o crime organizado volta sua atenção para esse mercado. Shepherd defende regras mais rigorosas. Em cartas abertas, pediu que a Cites passasse a tratar do comércio de formigas. Pela Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (Cites), as formigas não são consideradas espécie ameaçada. Por isso, o comércio não é proibido nem regulamentado em nível internacional.
Formigas invasoras já causam problemas na Europa
As consequências já aparecem na Europa. Colônias inteiras da formiga invasora Tapinoma magnum, originária do Norte da África, provocam interrupções no fornecimento de energia elétrica e internet no sul da Alemanha. Elas se instalam em caixas de distribuição.
No verão europeu de 2025, representantes de municípios da Áustria, da Suíça e do sul da Alemanha se reuniram em uma conferência sobre formigas. O objetivo era trocar experiências. Por causa das mudanças climáticas, com temperaturas mais altas e menos geadas, a espécie encontra condições cada vez mais favoráveis na Europa Central.
Shepherd ressalta que a maioria das formigas chega à Europa pela importação de plantas, não pelo comércio online. Ainda assim, ele considera que esse mercado representa um risco. Ninguém pode garantir que colônias não venham a ser soltas na natureza em algum momento.
O que os criadores amadores pensam
Criadores como Meier conhecem bem o debate e discutem o assunto em fóruns na internet. Meier recomenda que, quando o interesse pela criação diminuir, as colônias sejam repassadas a outros criadores ou eliminadas de forma adequada, em vez de libertadas.
Para Shepherd, isso não é suficiente. Enquanto o comércio internacional de formigas permanecer amplamente sem regulamentação, continuará representando um risco.
Perguntas Frequentes
É legal comprar formigas raras pela internet?
Depende do país. No Quênia, a exportação de qualquer animal silvestre é proibida. Internacionalmente, a Cites não regula o comércio de formigas, que não são espécie ameaçada.
Quanto custa uma formiga rainha rara?
Uma rainha da espécie Messor cephalotes pode custar mais de 200 euros, cerca de R$ 1,2 mil.
O que acontece com quem é flagrado contrabandeando formigas no Quênia?
As penas variam. Um cidadão chinês foi condenado a um ano de prisão por biopirataria. Quatro homens da "gangue das formigas" pagaram multas de 5 mil euros.
Por que as formigas são importantes para o ecossistema?
Elas transportam sementes de gramíneas, contribuindo para a regeneração da cobertura vegetal da savana. A captura de rainhas interrompe a formação de novas colônias.
Formigas invasoras causam problemas na Europa?
Sim. A Tapinoma magnum, originária do Norte da África, provoca interrupções no fornecimento de energia e internet no sul da Alemanha ao se instalar em caixas de distribuição.