Serviços

Dois Relatórios e Um Supremo: PF, Toffoli e Vorcaro

ResumoA Polícia Federal produziu um relatório sigiloso de 196 páginas detalhando relações de Daniel Vorcaro com ministros do STF, com foco em Dias Toffoli, relator do caso Master. A proximidade de Vorcaro com Alexandre de Moraes não consta no documento entregue à presidência da Corte, segundo o resumo divulgado.

Relatório sigiloso de 196 páginas da PF descreve relações de Daniel Vorcaro com ministros do STF. O foco recaiu sobre Dias Toffoli, relator do caso Master, e a proximidade com Alexandre de Moraes ficou fora do documento entregue à presidência da Corte.

Marília Stefani
Marília Stefani Repórter de Segurança Pública · 14 de setembro de 2026 · 3 min de leitura
Dois Relatórios e Um Supremo: PF, Toffoli e Vorcaro

Um relatório sigiloso de 196 páginas, assinado em 9 de fevereiro por quatro delegados da Polícia Federal, descreveu as relações pessoais e de negócios do banqueiro Daniel Vorcaro com ministros do Supremo Tribunal Federal. O documento, revelado com exclusividade pela piauí, dedicou atenção especial a José Antonio Dias Toffoli, relator do caso Master no STF, que desde o fim de 2025 tomara decisões capazes de dificultar o avanço das investigações sobre o banco e seu dono.

O material foi encaminhado ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Diante da gravidade do que os subordinados haviam encontrado, ele pediu audiência ao presidente do STF, Luiz Edson Fachin. Mas o documento que chegou às mãos de Fachin não continha tudo. As mensagens extraídas do celular de Vorcaro que revelavam sua proximidade com Alexandre de Moraes ficaram de fora, ou apareceram apenas como amostra reduzida do que ainda viria à tona. Daí o título: dois relatórios, um Supremo.

O que o relatório da PF reconstituiu

Os investigadores analisaram dezessete contatos telefônicos entre Vorcaro e Toffoli, cruzando as ligações com mensagens sobre encontros, negócios, festas e viagens. Identificaram doze encontros marcados entre o banqueiro e o ministro, em Brasília, São Paulo e Londres.

Nas conversas interceptadas, o resort Tayayá aparece chamado por Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações, de "a fazenda de Toffoli". Faria serviu como ponte entre Vorcaro e Alexandre de Moraes, antes que banqueiro e ministro passassem a trocar mensagens diretamente. Também fazia a interlocução com Toffoli, embora as ligações diretas entre os dois indiquem que o intermediário não era indispensável.

O relatório reconstitui ainda como Vorcaro abasteceu estruturas empresariais e fundos ligados a familiares de Toffoli. Em nota à piauí, o ministro afirmou que "sua participação no referido evento de Londres se deu a convite do colega de Corte ministro Alexandre de Moraes" e que "jamais teve relação de amizade ou intimidade com Daniel Vorcaro".

O fórum em Londres e a conta do hotel

Em abril de 2024, o 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias reuniu autoridades brasileiras em Londres, financiado quase integralmente pelo Master. As mensagens mostram que os custos cresceram de forma vertiginosa. Em 20 de abril, Leonardo Serrano Giunchetti, da SL Consulting, responsável pela logística, avisou Vorcaro de que os gastos com hospedagem no Hotel The Peninsula haviam aumentado, entre outras razões, porque autoridades fizeram upgrades em seus quartos. A conta chegaria a 760 mil libras, cerca de 5 milhões de reais, por três dias. Depois, subiria para 850 mil libras, aproximadamente 6 milhões de reais.

Giunchetti advertiu o banqueiro: "Todos esses upgrades de quartos de autoridades, etc., serão conta nossa. Isso, em teoria, por lei, não pode." O Código de Conduta e Ética do STF proíbe presentes acima de 1% da remuneração mensal de um ministro, hoje em 46.366 reais brutos, mas a regra vale para servidores do tribunal, não para os próprios ministros. O CNJ veda que magistrados recebam vantagens que comprometam a isenção, mas nenhum ministro do Supremo foi punido por aceitar generosidade alheia.

A degustação de uísque Macallan custou a Vorcaro o equivalente a 3,3 milhões de reais, pagos com cartão de crédito. Dos mais de sessenta convidados, 22 participaram, um gasto de aproximadamente 145 mil reais por cabeça. Ao final, cada um recebeu uma garrafa avaliada em 1.800 libras, cerca de 12,4 mil reais. Entre os presentes estavam os ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, o diretor-geral da PF Andrei Rodrigues, o presidente da Câmara Hugo Motta, o ex-ministro Ciro Nogueira, o procurador-geral da República Paulo Gonet, o então ministro da Justiça Ricardo Lewandowski e os ministros do STJ Luis Felipe Salomão e Benedito Gonçalves.

O relatório concluído em fevereiro registra ainda que Alexandre de Moraes participou da organização do evento, sugeriu convidados, fez convites pessoalmente e aprovou o cronograma da viagem. Esse dado não recebeu destaque no documento entregue por Andrei Rodrigues a Fachin.

O caso segue sob análise das instâncias competentes, e a discussão sobre os limites entre relação pessoal e dever funcional de magistrados permanece aberta no debate público.

// Leia também

Publicidade