CEO da Yara vê queda na demanda por fertilizante
A redução do uso de fertilizantes em diferentes regiões agrícolas do mundo preocupa a Yara International. Segundo Svein Tore Holsether, CEO da companhia, a menor aplicação de nutrientes pelos agricultores, motivada principalmente pelos custos elevados, pode ter efeitos sobre a produtividade das lavouras no longo prazo e, consequentemente, sobre a produção global de alimentos.
Em entrevista a jornalistas brasileiros em evento da companhia na Holanda, Holsether afirmou que aproximadamente metade da produção de alimentos do mundo é resultado direto do uso de fertilizantes. A preocupação está no fato de que agricultores podem estar aplicando quantidades de nutrientes inferiores ao nível considerado adequado do ponto de vista agronômico.
Embora os efeitos dessa redução possam não aparecer imediatamente, "se os agricultores estão em uma situação em que colocam menos do que o nível agronomicamente ideal em seus campos, isso terá uma consequência para a produção de alimentos tanto no curto quanto no longo prazo", afirmou. O executivo lembrou que produtores podem adiar ou reduzir a aplicação por algum período sem queda proporcional na produção, mas que essa estratégia tem limites. "Você pode atrasar a aplicação por um tempo, mas, eventualmente, isso vai aparecer e resultar em menores produtividades", disse.
A resposta das lavouras depende também das condições climáticas e do tipo de nutriente. No longo prazo, a companhia considera mais claro o risco de perda de produtividade caso a reposição de nutrientes permaneça abaixo do necessário. Para o CEO, o cenário merece atenção pela possibilidade de diferentes fatores se combinarem. "Se tivermos uma combinação de condições climáticas severas, não colocar o tipo correto de fertilizante e talvez um El Niño mais forte, a combinação de tudo isso poderia ser bastante grave", disse.
A empresa evita projetar neste momento qual será o impacto sobre a produção mundial. "No curto prazo, é bastante desafiador ser muito exato", afirmou o executivo. A sucessão de choques que atingiu o mercado de fertilizantes nos últimos meses expôs, na avaliação da Yara, a fragilidade das cadeias globais de alimentos. "Este ano passamos por múltiplos choques em todo o sistema de alimentos, e isso ilustra como todo o sistema é frágil e como ele depende de determinados pontos para garantir o abastecimento", afirmou Tore Holsether.
O executivo destacou ainda aspectos geopolíticos, como o fechamento do Estreito de Ormuz. Segundo a Yara, cerca de 30% da ureia comercializada internacionalmente passa pelo estreito. A região também influencia o mercado de enxofre, matéria-prima para fertilizantes fosfatados, enquanto a elevação dos custos de energia afeta diretamente a indústria, cuja produção é intensiva em energia.
Em América do Sul e América do Norte, a demanda vem caindo, enquanto na Europa permanece estável. Segundo o CEO, o cenário brasileiro ganha importância adicional porque, embora o país reúna condições importantes para a produção de alimentos, como disponibilidade de terras agricultáveis, boas condições climáticas, sol e água, seus solos demandam reposição significativa de nutrientes. "Se continuar a situação em que a quantidade correta não é colocada de volta nos campos, isso terá um impacto sobre a produtividade", afirmou.
O principal fator por trás da redução do uso de fertilizantes é econômico. Os agricultores estão ajustando seus custos diante dos preços dos insumos e das condições de seus negócios. "Os agricultores também administram negócios. Então, precisam fazer o que é certo para o resultado final deles", afirmou. Para o executivo, governos também têm um papel a desempenhar. "Os formuladores de políticas [públicas] também têm um papel a desempenhar para apoiar os agricultores, tendo em mente o que potencialmente pode acontecer se não tivermos as produtividades adequadas em todo o mundo", disse.