# Camundongos com cérebros humanos: tecido cerebral transplantado

> Organoides corticais humanos transplantados em camundongos geneticamente modificados formaram redes neurais funcionais, conforme estudo conduzido por pesquisadores. A técnica permite observar a integração de tecido cerebral humano em um organismo vivo, abrindo caminho para investigar autismo, epilepsia e esquizofrenia em modelos mais próximos da biologia humana.

*Portal Notícias MG · Serviços · 16 de setembro de 2026 · Inácio Bicalho*

Pesquisadores transplantaram organoides corticais humanos em camundongos geneticamente modificados e observaram a formação de redes neurais funcionais. O avanço pode acelerar estudos sobre autismo, epilepsia e esquizofrenia.

Cientistas transplantaram tecido cerebral humano cultivado em laboratório em camundongos geneticamente modificados. O estudo, publicado na revista Nature, foi conduzido por pesquisadores que consideram o resultado um avanço importante para o entendimento do desenvolvimento do cérebro humano e para a pesquisa sobre distúrbios como autismo profundo, epilepsia, paralisia cerebral e esquizofrenia.

Os camundongos foram modificados para não possuírem a maior parte do próprio córtex cerebral, a camada mais externa do cérebro. Com esse espaço livre, o tecido humano transplantado reproduziu características-chave do desenvolvimento cerebral, incluindo a formação de redes neurais funcionais. O tecido cerebral humano vivo é praticamente inacessível para pesquisa por razões éticas, e é essa barreira que o modelo busca contornar.

"Isso nos dá uma maneira de estudar o tecido neural humano em vários níveis, desde genes e tipos de células individuais até circuitos e consequências funcionais em um animal", disse o neurocientista da Universidade de Stanford Sergiu Pasca, autor sênior do estudo. "Podemos começar a nos perguntar como as alterações genéticas humanas associadas a doenças alteram o desenvolvimento neural e os circuitos, e se tratamentos potenciais podem prevenir ou corrigir essas alterações."

Os pesquisadores criaram, em placas de laboratório, organoides tridimensionais miniaturizados, projetados para reproduzir os principais tipos de células e características de desenvolvimento do córtex cerebral humano, região que controla cognição, linguagem, atenção e tomada de decisão. Para isso, reprogramaram células da pele ou do sangue para que se tornassem células-tronco capazes de se transformar em praticamente qualquer tipo de célula do corpo. Nos camundongos, os cientistas usaram uma estratégia genética que bloqueou o desenvolvimento da maioria das células que normalmente dão origem ao córtex cerebral e ao hipocampo, estrutura crucial para a formação da memória.

"O espaço normalmente ocupado pelo córtex do camundongo nos permitiu transplantar organoides corticais humanos logo após o nascimento e proporcionou ao tecido humano espaço para crescer amplamente", afirmou Pasca. "Nesses camundongos, os enxertos humanos geraram uma ampla diversidade de tipos de células corticais e estabeleceram conexões funcionais por todo o sistema nervoso do camundongo."

Entre os tipos de células geradas estava um tipo raro, chamado neurônios de von Economo, considerado vulnerável em algumas formas de demência. Os pesquisadores batizaram os animais de camundongos "xenocorticais", em referência ao tecido cortical humano transplantado, tido como "estranho".

Pasca fez questão de ajustar a terminologia. "Descrições como camundongos humanizados, camundongos com cérebros humanos ou minicérebros não são representações precisas do que criamos. Esses animais mantêm um sistema nervoso de camundongo, mas contêm um volume maior de tecido cortical humano que se desenvolve, se integra e forma conexões dentro dele."

Como primeira aplicação do modelo, os pesquisadores expuseram os camundongos à privação de oxigênio. O cérebro humano em desenvolvimento pode ser altamente vulnerável a essa condição, com consequências neurológicas graves quando ocorre durante a gravidez ou por volta do nascimento. Os camundongos comuns de laboratório se mostraram resistentes a níveis de privação de oxigênio que causam danos ao tecido neural humano.

"Nos camundongos xenocorticais, um período de baixo nível de oxigênio causou lesão substancial às células corticais humanas e foi acompanhado por anormalidades na marcha e na coordenação motora", disse Pasca. Os camundongos modificados pareciam comuns enquanto se movimentavam e exploravam o ambiente, mas apresentavam déficits na coordenação motora fina e diferenças nas capacidades de memória.

Os experimentos seguiram diretrizes éticas voltadas a duas questões principais, segundo o pesquisador. A primeira é o bem-estar animal, com a exigência de que a questão científica justifique o uso de animais e que o sofrimento seja minimizado. A segunda é se a introdução de tecido neural humano cada vez mais complexo no sistema nervoso de um animal poderia levar a propriedades inesperadas ou inéditas que exigissem considerações éticas adicionais.

"Também precisamos ponderar o custo de não realizar esse trabalho", disse Pasca, observando que distúrbios neurológicos e psiquiátricos afetam quase uma em cada cinco pessoas, mesmo com o entendimento científico ainda limitado e a falta de tratamentos eficazes para muitas dessas condições.

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Fonte (canonical): https://portalnoticiasmg.com.br/servicos/camundongos-cerebros-humanos-cientistas-transplantaram-tecido-cerebral-humano-cu/
