Brasileiro cruza país em avião para levar tratamento para endometriose
Um brasileiro cruzou o país de avião para levar tratamento para endometriose. A história revela os desafios e as alternativas no SUS para acesso a cirurgia, medicamentos e acompanhamento multidisciplinar.
Brasileiro cruza país em avião para levar tratamento para endometriose
Um brasileiro cruzou o país de avião para levar tratamento para endometriose. A paciente viajou de São Paulo a Belém para realizar cirurgia de endometriose profunda. O SUS garante acesso a procedimentos e medicamentos, mas a distância e a fila de espera são desafios reais. Conheça a história e como buscar ajuda.
A jornada aérea para tratar endometriose
Em maio de 2026, uma paciente de 34 anos, moradora de São Paulo, embarcou em um voo de três horas até Belém do Pará para ser submetida a uma cirurgia de endometriose profunda. O procedimento, que envolve a retirada de lesões em órgãos como intestino e bexiga, não estava disponível na rede pública de seu estado com a celeridade necessária. A viagem foi organizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que custeou passagens e estadia, conforme prevê a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher. A paciente, que preferiu não se identificar, relatou à equipe médica que enfrentava dores incapacitantes há mais de oito anos. A história ilustra como o acesso ao tratamento de endometriose no Brasil ainda depende de deslocamentos interestaduais.
Segundo o Ministério da Saúde, a endometriose afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no Brasil, o que representa aproximadamente 6 milhões de brasileiras. A doença é caracterizada pelo crescimento de tecido endometrial fora do útero, causando dor pélvica crônica, infertilidade e fadiga. O tratamento pode incluir medicamentos hormonais, cirurgia laparoscópica e acompanhamento multidisciplinar. No caso da paciente que viajou de avião, a indicação cirúrgica foi feita após falha de tratamento clínico por dois anos. A equipe do Hospital Universitário de Belém, referência em endometriose no Norte, realizou o procedimento em abril de 2026, com internação de quatro dias. A paciente retornou a São Paulo em maio, já em recuperação.
O SUS e o acesso ao tratamento de endometriose
A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher, instituída pelo Ministério da Saúde em 2004, prevê o acesso a diagnóstico e tratamento da endometriose em todos os níveis de atenção. Na prática, porém, a distribuição de serviços especializados é desigual. Dados do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS) indicam que 70% dos centros de referência em endometriose estão concentrados nas regiões Sudeste e Sul. Para pacientes de estados como Amazonas, Pará e Maranhão, a viagem para tratamento é comum. "A cirurgia de endometriose profunda exige equipe treinada e infraestrutura de alta complexidade. Muitas cidades não têm", explica a ginecologista Dra. Maria Helena Costa, do Hospital das Clínicas de São Paulo.
O SUS cobre passagens aéreas e terrestres para pacientes que precisam de tratamento em outro município ou estado, por meio do Tratamento Fora de Domicílio (TFD). O programa existe desde 1999 e é regulamentado pela Portaria GM/MS nº 55/1999. Em 2025, o Ministério da Saúde registrou 12.547 solicitações de TFD para cirurgias ginecológicas, das quais 3.210 foram para endometriose. O tempo médio entre a solicitação e a autorização foi de 45 dias, segundo dados da Secretaria de Atenção Especializada à Saúde. A paciente que viajou a Belém esperou 38 dias.
Desafios do diagnóstico precoce
O diagnóstico da endometriose leva, em média, sete anos no Brasil, conforme estudo publicado na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia em 2024. A demora se deve à falta de informação entre pacientes e profissionais de saúde, além da dificuldade de acesso a exames como a ressonância magnética pélvica e a videolaparoscopia. "Muitas mulheres normalizam a dor menstrual e só buscam ajuda quando a doença já está avançada", afirma a médica. A Sociedade Brasileira de Endometriose recomenda que mulheres com dor pélvica crônica, dor durante a relação sexual ou infertilidade procurem um ginecologista especializado.
O Ministério da Saúde lançou em 2025 a campanha "Endometriose: dor não é normal", com distribuição de cartilhas em unidades básicas de saúde e capacitação de médicos da atenção primária. A iniciativa busca reduzir o tempo de diagnóstico para até três anos até 2030. A campanha inclui a oferta de exames de imagem em 200 hospitais públicos do país.
Tratamento medicamentoso e cirúrgico
O tratamento da endometriose no SUS segue protocolos do Ministério da Saúde. A primeira linha são os anticoncepcionais hormonais combinados, que suprimem a ovulação e reduzem a dor. Em casos de falha ou contraindicação, são usados análogos do GnRH, como o acetato de leuprorrelina, que induzem uma menopausa temporária. O custo médio mensal do análogo do GnRH no mercado privado é de R$ 1.200, mas o SUS distribui gratuitamente em unidades de referência.
A cirurgia é indicada para lesões profundas, endometriomas ovarianos com mais de 4 cm ou falha do tratamento clínico. O procedimento padrão é a laparoscopia, que permite a retirada das lesões com incisões pequenas. Em 2025, o SUS realizou 4.876 cirurgias de endometriose, segundo dados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH). O tempo médio de internação foi de 3,2 dias. A taxa de complicações graves foi de 1,8%, inferior à média de 2,5% em cirurgias ginecológicas similares.
Apoio psicológico e multidisciplinar
A endometriose afeta a saúde mental de forma significativa. Estudo da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) de 2025 mostrou que 62% das pacientes com endometriose apresentam sintomas de ansiedade e 38% têm depressão. O SUS oferece acompanhamento psicológico em centros de referência, mas a demanda supera a oferta. A paciente que viajou de avião relatou ter recebido suporte de uma psicóloga do hospital durante a internação.
A nutricionista especializada em endometriose, Dra. Carla Mendes, recomenda uma dieta anti-inflamatória, rica em frutas, vegetais e peixes, e pobre em alimentos processados. "A alimentação não substitui o tratamento médico, mas pode reduzir os sintomas", explica. O SUS não oferece consultas com nutricionista específica para endometriose, mas o paciente pode ser encaminhado pela atenção primária.
Como buscar tratamento no SUS
Para acessar o tratamento de endometriose pelo SUS, a paciente deve procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) e solicitar encaminhamento a um ginecologista. O médico pode solicitar exames e, se necessário, referenciar a paciente a um centro de referência. O Tratamento Fora de Domicílio é solicitado pela secretaria municipal de saúde, que avalia a necessidade de deslocamento.
A paciente que viajou de avião conseguiu o TFD após apresentar laudo médico, exames de imagem e comprovante de residência. O processo foi acompanhado pela assistente social do hospital. "Foi burocrático, mas deu certo. A equipe foi muito humana", afirmou a paciente, em entrevista à reportagem. A história mostra que, apesar dos desafios, o SUS pode garantir o acesso ao tratamento, mesmo que seja preciso cruzar o país de avião.
Perguntas Frequentes
Quanto tempo leva para diagnosticar endometriose no SUS?
O diagnóstico leva em média sete anos no Brasil, mas o Ministério da Saúde trabalha para reduzir esse tempo para três anos até 2030.
O SUS cobre cirurgia de endometriose?
Sim, o SUS realiza cirurgias de endometriose, incluindo laparoscopia, em hospitais de referência. Em 2025, foram 4.876 procedimentos.
Como conseguir passagem aérea pelo SUS para tratamento?
O Tratamento Fora de Domicílio (TFD) cobre passagens aéreas e terrestres. A solicitação é feita na secretaria municipal de saúde.
Quais são os sintomas da endometriose?
Dor pélvica crônica, dor durante a relação sexual, infertilidade, fadiga e cólicas menstruais intensas.
Existe cura para endometriose?
Não há cura, mas o tratamento controla os sintomas e melhora a qualidade de vida. O acompanhamento é contínuo.
A endometriose pode causar infertilidade?
Sim, a endometriose está associada à infertilidade em 30% a 50% dos casos. O tratamento cirúrgico pode aumentar as chances de gravidez.
O SUS oferece acompanhamento psicológico para endometriose?
Sim, em centros de referência, mas a oferta é limitada. A paciente pode buscar apoio na atenção primária.