# Agro pode pagar mais caro pelo crédito se risco jurídico aumentar

> O agronegócio brasileiro pode enfrentar encarecimento do crédito e redução na oferta de financiamento caso o risco jurídico aumente. Recuperações judiciais no setor cresceram 56,4% em 2025, segundo a Serasa Experian, e a perda de previsibilidade no Judiciário tende a elevar prêmios de risco cobrados por credores.

*Portal Notícias MG · Serviços · 15 de setembro de 2026 · Sérgio Tadeu Mafra*

Recuperações judiciais no agro cresceram 56,4% em 2025, segundo a Serasa Experian. Para especialista, perda de previsibilidade no Judiciário pode encarecer o crédito e reduzir a oferta de financiamento ao setor.

A insegurança jurídica no Judiciário pode encarecer o crédito para empresas e produtores rurais. A avaliação é de Valdo Silveira, CEO da Leme Inteligência Forense, empresa de investigação patrimonial e recuperação de ativos.

O risco não está em dificuldade extra para localizar bens, mas em bancos e credores recalcularem o risco das operações. Sem previsibilidade, a tendência é exigir mais garantias, reduzir limites ou cobrar mais pelo financiamento.

O agronegócio sente esse movimento com mais força. O setor acumulou 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, alta de 56,4%, e 474 casos no primeiro trimestre de 2026, avanço de 21,9% em um ano, segundo a Serasa Experian. Entre produtores rurais pessoa jurídica, foram 196 pedidos no primeiro trimestre, alta de 73,5%. O cultivo de soja concentrou 137 desses processos e a criação de bovinos, 42.

Para Silveira, a previsibilidade do Judiciário virou variável econômica. Não basta saber se o devedor tem patrimônio: é preciso estimar tempo e custo para transformá-lo em dinheiro. Ele divide a recuperação em três etapas. A primeira é a investigação patrimonial, que identifica imóveis, máquinas, veículos, participações e créditos a receber. A segunda é a constrição, quando se verifica se o ativo pode ser alcançado por medida judicial. A terceira é a monetização, a conversão do bem em dinheiro.

Uma fazenda pode existir, mas estar vinculada a outras garantias. Uma máquina pode estar financiada. Um recebível pode depender de disputa judicial. "Você pode encontrar patrimônio, mas precisa saber se consegue atingir esse patrimônio e depois converter em valor econômico", afirma Silveira.

Em março deste ano, a Corregedoria Nacional de Justiça publicou o Provimento 216/2026, com diretrizes para recuperação judicial e falência de produtores rurais. A medida veio após o Ministério da Agricultura manifestar preocupação com os efeitos desses processos sobre o risco bancário e os juros.

O debate não é só do campo. Segundo o CNJ, o Judiciário encerrou 2025 com 75,5 milhões de processos em tramitação e 40,9 milhões de novos casos, o maior volume da série histórica. A taxa de congestionamento ficou em 62,6%.

Segundo Silveira, a crise institucional não é a causa da inadimplência no campo. O produtor já enfrenta juros altos, custos de produção, volatilidade das commodities e clima. O risco é somar mais incerteza. "Se a percepção de que uma dívida poderá ser recuperada com dificuldade ou em prazo imprevisível aumentar, o impacto pode aparecer na operação seguinte: menos crédito disponível, mais garantias exigidas ou custo financeiro maior", diz.

Para quem empresta, uma dívida de R$ 10 milhões recuperada em meses vale muito mais do que a mesma dívida em disputa por anos. É esse cálculo que pode chegar ao bolso de quem financia a safra.

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