Rodrigo Fagundes nasceu para ser Nicolau em Quem Ama Cuida
Rodrigo Fagundes nasceu para ser Nicolau e Quem Ama Cuida teve a sorte de encontrá-lo. A avaliação é do repórter do Observatório da TV, que acompanha a novela e escreveu sobre o trabalho do ator. Em uma trama atravessada por vinganças, traumas e personagens em permanente estado de combustão, Nicolau encontrou outro caminho.
Rodrigo Fagundes compreendeu que não precisava disputar volume com Quem Ama Cuida. Seu humor nasce da observação, da reação e, principalmente, da escuta. É um trabalho de ator que conhece o mecanismo da comédia e, por isso mesmo, não precisa sublinhá-la. Quando a história pede emoção, ele também muda de registro sem fazer anúncio. Nicolau pode provocar uma gargalhada e, pouco depois, despertar ternura. Parece simples. Nunca é.
Talvez haja uma razão particular para reconhecer essa qualidade. Antes de ser jornalista, quem escreve participou da claque do Zorra Total. Naquele tempo, a claque era feita ali, ao vivo, com gente de verdade ajudando a construir a atmosfera de risos e aplausos dentro do estúdio. E foi de um desses lugares quase invisíveis da televisão que se pôde observar Rodrigo Fagundes quando sua carreira já vivia um grande momento. Ele tratava com a mesma atenção quem estava diante das câmeras e quem permanecia no canto escuro do estúdio. Para Rodrigo, ninguém parecia pequeno demais para fazer parte daquela engrenagem.
É impossível assistir a Nicolau hoje sem lembrar disso. Há no personagem uma humanidade que dificilmente se fabrica apenas com técnica. Rodrigo conhece o humor, mas conhece sobretudo gente. Por isso Nicolau não virou caricatura. O garçom escuta, acolhe, reage, sofre, diverte e oferece ao folhetim aquilo que personagens aparentemente secundários fazem quando encontram grandes intérpretes: deixa de cumprir uma função e passa a possuir vida própria. O espaço conquistado na trama não parece concessão. Parece consequência.
Nas cenas com Brigitte (Tatá Werneck), nas histórias com Tilde (Luana Martau) e Edvaldo (Guilherme Piva), ou mesmo diante da violência verbal de Pilar (Isabel Teixeira), Rodrigo encontra diferentes temperaturas sem perder Nicolau pelo caminho. Existe comedimento até na graça e dignidade até na fragilidade. Ele sabe uma coisa preciosa sobre televisão: às vezes, a melhor maneira de roubar uma cena é não tentar roubá-la.
E existe uma camada inevitavelmente emocionante nessa história. Maria de Lourdes, sua mãe e grande incentivadora, não está fisicamente aqui para acompanhar este momento. Mas seria impossível separar completamente o artista das pessoas que ajudaram a construí-lo. Sem dúvida, deve haver muito dela nessa delicadeza, nessa persistência e nesse amor pela dramaturgia que Rodrigo carrega. De algum modo, ela vive nele e continua chegando à televisão através dele.
Talvez seja por isso que se diga, sem hesitação, que Rodrigo Fagundes nasceu para ser Nicolau. Não apenas porque possui o tempo da comédia ou os recursos do drama. Mas porque existe alguma coisa do homem dentro daquele personagem. Quem escreveu teve a sorte de perceber isso quando ainda estava num canto escuro de um estúdio, muito antes de escrever sobre televisão. Hoje, vendo Nicolau ganhar o público de Quem Ama Cuida, a impressão permanece: talento explica muita coisa. Humanidade explica o restante.