Machado de Assis, uma vida diplomática: biografia
Em 'Machado, O Filho do Inverno', C.S. Soares reconstrói a infância silenciada do escritor e mostra como o interesse pela política externa transformou Machado de Assis, postumamente, em agente diplomático.
A biografia "Machado, O Filho do Inverno", de C.S. Soares (editora Ação, 2025), propõe uma leitura de Machado de Assis que vai além da cronologia e da análise literária. O livro, segundo o embaixador Ary Quintella, coloca o leitor diante do biografado como se fosse seu contemporâneo.
O que explica a expressão "uma vida diplomática" no título desta coluna? O interesse de Machado pela política externa, tema que surpreendeu o próprio autor do texto, diplomata de carreira. A Guerra do Paraguai, a execução de Maximiliano no México, atritos entre o Império brasileiro e o Uruguai, a China e a situação da Polônia subjugada pelo Império russo: o olhar desse homem que nunca saiu do Brasil se pousava constantemente sobre o exterior.
C.S. Soares faz bom uso de um artigo publicado na imprensa brasileira em 2024 por Xi Jinping, quando participou no Rio de Janeiro da Cúpula do G20. O líder chinês menciona o simbolismo de Cecília Meireles e Machado de Assis terem traduzido poemas da dinastia Tang, indicando "uma sinfonia mental que conecta os dois países". Machado, amigo em vida de alguns diplomatas, torna-se assim, postumamente, ele próprio um agente diplomático.
O livro também ilumina o conceito de silêncio, palavra mais recorrente no primeiro volume. No capítulo 8, "O órfão imaginista", C.S. Soares explica a escassez documental sobre a infância do biografado: "Negro, pobre, neto de ex-escravizados, ele pertencia a uma camada que vivia às margens dos instrumentos de preservação oficial, arquivos, retratos, escrituras". Escrever sobre Machado, diz o biógrafo, é escrever contra esse apagamento e recusar-se a ser cúmplice da omissão.
A obra não é uma biografia romanceada, embora o autor por vezes descreva cenas como se as tivesse presenciado. O objetivo, segundo ele, não é inventar, e sim "escavar o que sobra, recompor contextos, escutar ecos". Ao final, C.S. Soares cita André Maurois, que perguntava se a biografia seria uma ciência exata ou uma arte imprecisa. Para o biógrafo, é ambas e mais: um "esforço de tradução entre o visível e o oculto".
Machado "aprendeu a ocupar o centro. Não com alarde, mas com gramática. Não com armas, mas com substantivos". O silêncio, assim, torna-se método: "o silêncio é uma forma superior de dizer".