Javier Peña: Kafka é o santo padroeiro dos escritores infelizes
O espanhol Javier Peña elege Franz Kafka como o santo padroeiro dos escritores infelizes. Em entrevista, o autor de 'Tinta invisível' fala sobre a infelicidade dos criadores e a relação com o pai.
O escritor espanhol Javier Peña define Franz Kafka como "o santo padroeiro dos escritores infelizes". A declaração foi dada em entrevista ao Pensar, do Estado de Minas, sobre o livro "Tinta invisível: Sobre perda, escrita e o poder transformador das histórias", lançado no Brasil pela editora Instante, com tradução de Marina Waquil.
"Sempre pensei em Kafka como a quintessência da infelicidade do escritor", afirma Peña. "Alguém que tem a necessidade de escrever ainda que a literatura só lhe traga dissabores, alguém que fracassa em vida, mas se converte no escritor mais influente do século 20." Na visão do autor, os grandes criadores, não apenas escritores, mas qualquer artista, são "pessoas extremamente infelizes", que não se encaixam no mundo e, por isso, inventam universos paralelos.
A tese ganha corpo no capítulo "Sofrimento" do livro, onde Kafka aparece ao lado de Maya Angelou, Nietzsche, Amós Oz e Shirley Jackson. Peña evita chamar de "casos" os fragmentos que compõem a obra. "A ideia de caso tem algo de aleatório", explica. A versão final do livro, embora pareça obra do acaso, tem por trás uma construção laboriosa, na qual cada tijolo foi buscado e trabalhado.
A origem do projeto é pessoal. Em 2021, com o pai gravemente doente no hospital, Peña percebeu que perderia as histórias que compartilhavam. "Quando uma pessoa está morrendo, você não fala sobre deus, sobre a morte, sobre a ciência ou sobre o além, você conta histórias para fazê-la sorrir", relembra. Poucas semanas após o falecimento, começou a escrever os roteiros do podcast "Grandes infelices: Luces y sombras de grandes novelistas", que tem um episódio sobre Clarice Lispector.
A inclusão do pai no livro não foi planejada. "Foi ele quem se infiltrou no livro", diz Peña. "Para a imensa maioria de nós que amamos os livros, a porta de entrada para esse amor foi o nosso pai ou a nossa mãe." A escritora Irene Vallejo, autora de "O infinito em um junco", define a obra como "um fascinante mosaico de vida de escritores e a crônica do luto de um filho".
A tendência para os próximos meses é que a discussão sobre o papel das histórias na formação dos leitores ganhe espaço, especialmente entre quem vê na literatura um caminho para entender a própria vida. O livro de Peña chega ao leitor brasileiro como um convite a reconhecer, nas histórias que herdamos, a matéria-prima do que somos.