Ilha de Perim: Houthis tomam ilha que pode mudar guerra
Os Houthis capturaram a ilha iemenita de Perim, no Estreito de Bab al-Mandeb, na sexta-feira (11), após tomarem Mocha. Com o controle, o grupo apoiado pelo Irã pode bloquear a rota que a Arábia Saudita usa para escoar petróleo.
Os Houthis do Iêmen tomaram o controle da ilha iemenita de Perim, no Estreito de Bab al-Mandeb, na sexta-feira (11), dias após capturarem a cidade costeira de Mocha, cerca de 80 quilômetros ao norte. O movimento dá ao grupo armado, apontado como o mais poderoso representante regional do Irã, a capacidade de impedir a passagem de navios por um ponto de gargalo que ganhou peso desde que a guerra do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com o Irã fechou efetivamente o Estreito de Ormuz.
A ilha fica no ponto mais fechado do estreito, a cerca de 20 quilômetros do Chifre da África. Para manter o fluxo global de energia e os preços baixos, a Arábia Saudita desviou suas exportações de petróleo de Ormuz para o Mar Vermelho. Agora, essa rota alternativa passa a operar sob risco direto.
O que mudou, na prática, é a geografia do conflito. Por mais de uma década, a guerra civil do Iêmen pareceu um conflito regional distante. À medida que os combates se intensificam e os Houthis lançam ataques em direção à costa do Mar Vermelho, essa distinção desaparece. O Iêmen, com Perim no centro, se torna mais uma potencial linha de frente no confronto entre Washington e Teerã.
Os Houthis já controlam a capital Sanaa, vastas extensões do noroeste do país e grande parte da costa no Mar Vermelho ao norte da ilha. Se a história serve de guia, Bab al-Mandeb, via marítima menor que Ormuz e agora alternativa crucial a ele, pode ser onde o Irã, por meio de seu representante, aperte ainda mais os parafusos econômicos e políticos sobre Trump, elevando os preços do petróleo e prejudicando as perspectivas republicanas nas eleições de meio de mandato nos EUA em novembro.
"Dissemos ao mundo que este é um projeto iraniano, mas ninguém ouviu os iemenitas naquela época. Agora é um cenário geopolítico", disse Tarik Saleh, vice-presidente do governo iemenita internacionalmente reconhecido, à CNN em entrevista exclusiva. Saleh, sobrinho do ex-presidente deposto Ali Abdullah Saleh e ex-aliado dos Houthis, afirmou não estar recebendo nenhuma ajuda dos Estados Unidos, "apenas conversas". Ele alertou que, se os Houthis assumissem o controle de Bab al-Mandeb, "uma força massiva internacional e as marinhas seriam necessárias" para expulsá-los.
A ofensiva mais recente dos Houthis contra o governo do Iêmen começou em julho. Rompeu uma trégua tácita de quatro anos com a Arábia Saudita e inseriu o conflito iemenita na guerra mais ampla envolvendo o Irã. Em uma rara exceção às restrições impostas ao espaço aéreo iemenita desde 2015, a Arábia Saudita permitiu que um avião de passageiros iraniano pousasse em Sanaa, o primeiro voo direto entre Teerã e Sanaa em cerca de uma década. A aeronave transportou uma delegação Houthi ao funeral de Ali Khamenei, ex-líder supremo do Irã, morto junto com vários membros de sua família nos primeiros ataques aéreos americano-israelenses de 28 de fevereiro.
Quando o avião retornou 10 dias depois, a Arábia Saudita negou permissão para pousar em Sanaa, alegando preocupações de que ele também transportava membros do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã e equipamentos militares. Aeronaves sauditas atingiram a pista do aeroporto, forçando o avião a desviar para Hodeidah, controlada pelos Houthis. O episódio desfez a diplomacia que preservava a trégua informal e interrompeu os ataques Houthis ao território saudita.
Mohammed Al-Basha, ex-assessor de imprensa do governo iemenita e analista de risco baseado em Washington, descreveu a relação entre Teerã e os Houthis como "não uma relação de submissão, mas eles estão na mesma cama". Observadores alertam contra enquadrar a intervenção dos Houthis como mera execução da agenda regional do Irã. A guerra civil começou em 2014, quando os rebeldes tomaram Sanaa e expulsaram o governo internacionalmente reconhecido. Cerca de 22 milhões de pessoas, aproximadamente metade da população, necessitam de assistência humanitária até hoje no país.