Eduardo Halfon: 'No fim das contas, o que deixamos são histórias' | Entrevista
Eduardo Halfon, autor de mais de 20 livros, reflete sobre a passagem do tempo na literatura, a relação com o judaísmo e a experiência de viver em Minas Gerais. Em entrevista exclusiva ao Pensar, ele apresenta a nova edição de 'O boxeador polonês' e o romance 'Tarântula', ambos la
Eduardo Halfon: a literatura como ponte entre memória e ficção
O escritor guatemalteco Eduardo Halfon, 54 anos, está no Brasil para participar da 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Neste sábado, às 10h, divide a mesa "A saída é a volta" com a escritora argentina Paloma Vidal, com mediação de Gabriela Mayer. O evento tem transmissão pelo canal da Flip no YouTube. Em entrevista exclusiva ao Pensar, do Estado de Minas, Halfon reflete sobre a passagem do tempo, a relação com o judaísmo e a experiência de viver em Belo Horizonte.
"A passagem dos anos faz com a literatura o mesmo que faz conosco. Algumas histórias crescem e amadurecem com elegância, outras encolhem, outras se deformam, e ainda outras desaparecem por completo", afirma Halfon. A frase serve de apresentação para a nova edição de "O boxeador polonês", publicada dez anos após o primeiro lançamento e editada no Brasil em 2014 pela Rocco, com o título "O boxeador polaco". A nova edição chega às livrarias brasileiras pela Autêntica Contemporânea, que também lança "Tarântula", o mais recente romance do autor literatura guatemalteca contemporânea.
De onde vem a voz narrativa de Eduardo Halfon?
Halfon nasceu em 1971, em uma família judaica na Guatemala. Mudou-se para os Estados Unidos aos 10 anos e, depois de um périplo nômade, estabeleceu-se em Berlim. Com mais de 20 livros publicados e traduzidos em 15 idiomas, ele une memória e ficção em histórias que se conectam por personagens e situações recorrentes. "Tudo isso foi se construindo diante de mim sem nenhum planejamento", revela. "Um personagem pequeno em um livro se torna grande no seguinte, uma história que começo em um livro continua no outro. Vai se formando uma espécie de romance total, um romance em andamento. Vamos ver onde termina."
Para o escritor brasileiro Antônio Xerxenesky, autor do posfácio da edição da Rocco, Halfon estabelece "fricções das ficções" ao conectar o literário e o 'real'. "Ele escreve metaliteratura e demonstra grande parentesco com o chileno Roberto Bolaño", aponta. "Em toda escrita metaliterária, há o risco constante de se tornar chato: excessivamente cerebral, perdido em referências. A única saída é usar a própria literatura como uma ponte para o humano." É o que Halfon consegue em contos como "Distante", sobre um professor que sai pelo interior da Guatemala em busca de um aluno que abandonou a universidade.
A relação com o judaísmo e a busca pelas histórias
Em "Tarântula", pai e filho têm vínculos diferentes com o judaísmo. Halfon explica que a maturidade suaviza os conflitos, inclusive com a religião. "Quando criança, era mais interna; na adolescência, começa a virar uma rebeldia, uma rejeição a essa imposição, não ao judaísmo em si, mas à imposição de uma série de regras e comportamentos e proibições." Depois, tornou-se uma rejeição absoluta, "uma rejeição total a essa forma de vida". O escritor conta que só quando começou a escrever é que passou a buscar o judaísmo de novo, mas como literatura, como histórias. "Esse me interessa. E começo a me aproximar, a fazer uma série de aproximações em meus livros ao conflito que tenho com a religião."
Sobre a recepção da comunidade judaica ao seu trabalho, Halfon diz que "o que significa ser judeu é um tema muito judeu. E cada judeu lida com isso de maneira diferente. Então, muitos judeus me entendem. Alguns, os que levam a minha rejeição para o lado pessoal, não entenderão. Mas a grande maioria, sim."
Halfon em Minas Gerais: a infiltração da memória na ficção
"A Guatemala que realmente levo comigo e à qual regresso o tempo todo é a dos anos 1970, a da minha infância", afirma o escritor. Mas ele também guarda recordações muito marcantes de Minas Gerais. "Há mais de 20 anos, quando eu escrevia 'O boxeador polonês', minha então namorada, atual esposa, morava em Belo Horizonte. Ela fazia mestrado na UFMG em ecologia de mamíferos, trabalhando com o lobo-guará. E eu fui para BH, vivi com ela um tempo. Passeamos muito por Ouro Preto, Tiradentes, outras cidades históricas. Adorei. E isso foi se infiltrando no que eu escrevia."
O narrador não é o autor: quantos Halfons cabem em um Halfon?
Halfon faz questão de marcar a distinção entre o autor e o narrador de seus livros. "O Eduardo narrador não sou eu. Essa voz nasce com 'O boxeador polonês', esse livro cuja primeira edição em espanhol é de 2008. Ela surge já muito formada. Não é a minha voz. Não tem o meu temperamento nem a minha personalidade. Não fumo, mal viajo. Não estou tão perdido quanto ele, que duvida de tudo, precisa que o orientem sempre. E quase sempre é uma mulher que chega e lhe mostra o caminho. Então, insisto: é ele quem está nos contando a sua vida. Não eu."
Como começar a ler Eduardo Halfon?
"Luto", "Canção", "Tarântula" e "O boxeador polonês" foram traduzidos no Brasil. Segundo o autor, esses quatro livros fazem parte de uma série que se conecta. Para quem quer começar, a sugestão é mergulhar sem planejamento, como o próprio Halfon descreve seu processo. "Se deixando arrastar pelo rio do autor. Se essas águas são plácidas ou vertiginosas, não importa. O ponto é ter a coragem e a confiança para submergir por inteiro", escreve Xerxenesky dicas de leitura literária.
Perguntas Frequentes
Eduardo Halfon vai participar da Flip 2026?
Sim. Ele participa da 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) neste sábado, às 10h, na mesa "A saída é a volta", com Paloma Vidal e mediação de Gabriela Mayer.
Qual é o novo livro de Eduardo Halfon lançado no Brasil?
A Autêntica Contemporânea lançou a nova edição de "O boxeador polonês" e o romance "Tarântula".
O narrador dos livros de Halfon é ele mesmo?
Não. Halfon afirma que o narrador não é ele. "Não tem o meu temperamento nem a minha personalidade", diz o autor.
Quantos livros Eduardo Halfon já publicou?
Ele tem mais de 20 livros publicados, traduzidos em 15 idiomas.
O que Halfon disse sobre a passagem do tempo na literatura?
"A passagem dos anos faz com a literatura o mesmo que faz conosco. Algumas histórias crescem e amadurecem com elegância, outras encolhem, outras se deformam, e ainda outras desaparecem por completo."