Crise no STF molda discursos de Lula e Flávio
O Supremo Tribunal Federal (STF) realizou na quarta-feira (16) sua primeira sessão plenária após uma reunião marcada por confrontos inéditos entre ministros, acusações mútuas e um impasse sobre a abertura de investigações contra Alexandre de Moraes e André Mendonça. A crise interna da Corte passou a dominar o debate eleitoral a menos de três semanas do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, moldando os discursos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Flávio Bolsonaro (PL).
O que mudou, na prática, é o eixo da campanha. Enquanto a população debatia Alexandre de Moraes e as mensagens reveladas pelo caso, a campanha petista falava de soberania, Trump e Estados Unidos. Foi o que avaliou o analista de Política Caio Junqueira, para quem a campanha de Lula "perdeu ali".
Durante agenda de campanha no Ceará na quarta-feira, Flávio Bolsonaro buscou associar a imagem de Lula à de Alexandre de Moraes e dos ministros Flávio Dino, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes, referindo-se ao grupo como "ministros do Lula". "Ninguém aguenta mais os ministros do Lula no Supremo melando o Brasil, atrapalhando a nossa democracia", declarou o candidato do PL. Junqueira avaliou que, nos últimos dez dias, a campanha de Flávio soube explorar bem a crise do STF.
O que Lula disse e por que aliados reagiram mal
Em entrevista ao podcast Desce a Letra, Lula buscou se distanciar da crise ao lembrar que não foi ele quem indicou Alexandre de Moraes ao STF, indicação atribuída ao ex-presidente Michel Temer, e afirmou que qualquer ministro sob suspeita deve ser investigado. Ao mesmo tempo, elogiou Moraes pela atuação no julgamento da trama golpista: "Alexandre de Moraes fez um trabalho extraordinário para garantir a democracia nesse país".
Aliados do presidente avaliaram negativamente o elogio, segundo apuração de Jussara Soares. Interlocutores próximos ao petista consideraram a declaração um erro estratégico. Há um entendimento consolidado entre parte dos aliados, desde a escalada da crise, de que Lula deveria "soltar a mão" de Alexandre de Moraes. A fala foi lamentada como uma "infelicidade", especialmente por Moraes ser o relator do inquérito da trama golpista, que resultou na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, e também ter sido relator do inquérito das fake news.
A analista de Judiciário do JOTA Flávia Maia descreveu o ambiente interno do tribunal como de profunda tensão. "Tinha uma ideia ali na sessão de passar alguma normalidade, mas a gente via que não tinha nenhuma normalidade, o clima estava muito ruim", afirmou. Segundo ela, os ministros passaram o dia tentando avaliar os próximos passos, especialmente diante de uma nova sessão marcada para o dia 23, desta vez para decidir sobre a abertura ou não de uma investigação contra André Mendonça.
Flávia Maia destacou o caráter inédito dos acontecimentos da terça-feira (15). "Foi um espetáculo muito ruim para a imagem do Supremo, algo nunca visto na história, bem sem precedente mesmo, brigas inclusive com problemas de decoro entre os ministros." Para ela, o que se observa é uma fissura interna muito difícil de ser recomposta, com consequências que se estenderão além do período eleitoral.
A âncora Thais Herédia destacou a surpresa de marqueteiros políticos com o que chamou de "desarranjo" na campanha de Lula. Segundo ela, a demora na resposta do candidato chama atenção por se tratar de um político experiente no manejo de crises. "A impressão que dá é que é um tipo de problema que demandaria uma resposta do Lula que ele perdeu como ferramenta nos últimos anos", disse. Ela acrescentou que, segundo um marqueteiro consultado, "o Lula fala para trás, ele não fala para frente".
Herédia também observou que, ao elogiar Moraes em vez de se distanciar, Lula acabou reforçando a narrativa da oposição. Jussara Soares reforçou o diagnóstico, descrevendo desencontros internos na campanha e uma sensação de lentidão diante das crises. "A gente não sabe o que vai fazer, não sabe qual é o próximo passo", relatou uma fonte ouvida pela analista.