Clube de Leitura: espaço em que os livros reverberam
O Clube de Leitura do CCBB Rio completa cinco anos e se estende a Brasília. Autores como Mia Couto, Ruy Castro e Jeferson Tenório já passaram pelo projeto, que reúne cerca de 80 participantes por edição.
O Clube de Leitura do CCBB Rio de Janeiro completa cinco anos em 2026. A iniciativa, que já recebeu nomes como Mia Couto, Eliana Alves Cruz, Ruy Castro, Jeferson Tenório, Daniel Munduruku e Marcia Tiburi, reúne cerca de 80 participantes a cada edição e, neste ano, passa a ter encontros também em Brasília. A mediação e curadoria são da escritora e professora Suzana Vargas, à frente do projeto desde 2021.
O clube de leitura é um espaço em que os livros reverberam. Nele, o encontro inicialmente íntimo com a obra ganha outra dimensão quando passa pela experiência do outro. É o que sustenta a prática de grupos que se reúnem para ler um mesmo título e dividir impressões.
O que mudou na leitura coletiva
A experiência acumulada em cinco anos mostra deslocamentos concretos. O projeto já reuniu mais de setenta nomes de destaque no cenário nacional e internacional, entre autores, especialistas e artistas, e cerca de 80 participantes por edição. A extensão para Brasília amplia o alcance do formato.
Para Eliana Alves Cruz, autora de "O crime do Cais do Valongo", os clubes de leitura são hoje o grande campo para formação de leitores. Ela afirma que a leitura coletiva potencializa o livro, turbina seu alcance, pois toda história possui muitas interpretações, e destaca o movimento entre o íntimo e o coletivo. Esses espaços têm sido, segundo ela, um grande antídoto para a solidão, mas paradoxalmente na companhia de algo muito solitário: a leitura.
Ruy Castro, escolhido pelo público do CCBB para falar sobre "O ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim" ao lado da escritora Heloisa Seixas, aponta que nesses encontros há uma variedade de leitores. Uns leem melhor do que outros, diz, e isso pode beneficiar aqueles que leem de maneira mais desatenta e por alto, ensinando-os a se concentrarem e a buscarem significados mais profundos.
Jeferson Tenório, autor de "O avesso da pele", trata os clubes como um movimento literário. Não no sentido de produção literária, com suas características formais, mas uma produção de leitores. Nos clubes não há uma escrita criativa, mas uma escuta criativa, pois as pessoas ali estão reunidas em torno da palavra falada. Ele enfatiza que a literatura é posta em movimento com a partilha do texto e que, lido individualmente, o livro só se completa quando ganha continuidade coletivamente.
Mediação e efeito sobre a formação do leitor
Daniel Munduruku considera que a melhor experiência de leitura é aquela compartilhada, pouco importando o tema ou o estilo. O ponto central, na visão do escritor, é a mediação da leitura, condição que ajuda a ampliar, confrontar e relativizar os olhares. Os clubes de leitura são ferramentas importantes para fazer a mediação necessária para que as pessoas não criem expectativas para além de sua própria compreensão a respeito do que estão lendo, diz.
Marcia Tiburi, coordenadora do Clube do Livro Feminismos Urgentes e autora de "Complexo de vira-lata", compara a leitura a ver um filme. As pessoas querem contar a sua experiência, sintetiza, explicando que essa necessidade tem a ver com a condição social de nossa época, uma vez que, como seres comunicativos, buscamos partilha.
Suzana Vargas defende que a experiência da leitura coletiva dentro de um centro cultural reforça o princípio que norteou sua atividade em favor da leitura: o de que literatura é arte e o de que o ato de ler também é. Colocada num centro cultural onde outras atividades artísticas são oferecidas como lazer, a leitura entra nesse rol de atividades prazerosas e instrutivas ao mesmo tempo. A atividade leitora equipara-se, por exemplo, a ver um filme e uma peça teatral, exemplifica.
A escritora destaca ainda que as reuniões informais em torno de uma obra literária enriquecem e potencializam os efeitos da leitura sobre o indivíduo, porque oportunizam o contraditório e as opiniões diversas. Para os próximos meses, a tendência é que o formato siga ganhando edições fora do Rio, com a extensão para Brasília já em curso, sem que o projeto anuncie metas de público além do patamar atual.