Chica inesquecível: ópera sobre Chica da Silva estreia em 2026
A Fundação Clóvis Salgado encerra a temporada de óperas 2026 com duas montagens sobre Chica da Silva. 'Chica em Diamantina' abre a série na cidade onde ela viveu, seguida de 'Chica da Silva' no Palácio das Artes.
A Fundação Clóvis Salgado (FCS) fecha a temporada de óperas 2026 com duas montagens dedicadas a Chica da Silva, personagem central da história mineira do século 18. A primeira, "Chica em Diamantina", será apresentada amanhã na própria Diamantina, onde Chica viveu quando a cidade ainda era o Arraial do Tijuco. A segunda, "Chica da Silva", ocupa o Grande Teatro Cemig Palácio das Artes nos dias 19, 21 e 23, em Belo Horizonte.
A ópera "Chica da Silva" foi encomendada pela FCS, com música de Guilherme Bernstein e libreto de Marcos Bernstein e Flávia Bessone. A montagem reúne a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, o Coral Lírico de Minas Gerais e a Cia de Dança Palácio das Artes. A direção cênica é de Julianna Santos, a direção musical e regência de André Brant, a coreografia de Regina Advento, os figurinos de William Rausch, os cenários de André Cortez e a iluminação de Wagner Pinto. A direção geral é de Cláudia Malta. A soprano Marly Montoni interpreta o papel-título, e o tenor Ewandro Stenzowski dá vida ao contratador João Fernandes.
A nova produção se afasta da ficção e se aproxima do estudo histórico "Chica da Silva e o Contratador dos Diamantes - O Outro Lado do Mito" (2003), da historiadora Júnia Ferreira Furtado, que separa os fatos reais da visão popular que pintou Chica como mulher fatal e hipersexualizada. A pergunta que a ópera tenta responder: entre a lenda e a figura humana, qual é a real Chica da Silva?
Francisca da Silva de Oliveira nasceu entre 1731 e 1735 no Arraial do Milho Verde (Serro). Filha do militar português Antônio Caetano de Sá com Maria da Costa, uma escravizada, foi vendida na juventude ao médico Manuel Pires Sardinha, de quem teve seu primeiro filho, Simão Pires Sardinha. Em 1753, foi comprada pelo desembargador João Fernandes de Oliveira, controlador da extração de diamantes em Tijuco, que a alforriou logo depois.
A Igreja e as leis coloniais proibiam o casamento oficial, mas os dois viveram em concubinato estável por 17 anos e tiveram 13 filhos, todos reconhecidos pelo pai e portando seu nome, fato raro à época. Em 1770, João Fernandes voltou a Portugal para receber a herança do pai, levando alguns dos filhos homens, que receberam educação e ocuparam cargos no Reino. Deixou para Chica imensa fortuna, uma grande casa ainda hoje preservada e numerosos escravos. Ela usou a riqueza para educar os filhos nas melhores escolas europeias e casar as filhas com brancos da elite local.
Chica morreu em 15 de fevereiro de 1796 e foi enterrada no interior da igreja de São Francisco de Assis, privilégio reservado aos ricos e influentes. A ópera retoma as contradições da personagem: uma mulher que chegou a possuir 104 escravos sem libertar nenhum em testamento, mas que usou as brechas jurídicas e econômicas do sistema colonial para se emancipar.
A temporada deve movimentar o circuito cultural de Belo Horizonte e de Diamantina nos próximos meses, com impacto na rede de serviços que atende o público de ópera no estado. temporada cultural de Minas Gerais