Avalanche no Nepal: especialista diz se era evitável
A avalanche no Nepal não poderia ser evitada, mas sistemas de alerta sísmico poderiam dar minutos preciosos para evacuação. Especialista do GFZ explica os desafios e o potencial da tecnologia.
Equipes de resgate buscam nesta quinta-feira (27) ao menos 1.468 pessoas desaparecidas após as enchentes repentinas e deslizamentos que atingiram a fronteira entre o Nepal e o Tibete. O desastre deixou pelo menos 392 mortos e devastou vilarejos inteiros. Mais de 24 horas após a tragédia, especialistas alertam para o risco de novas inundações.
A força da enxurrada, que carregou água, lama, casas, pontes e barragens, foi comparada à de um tsunami. O fenômeno foi provocado pelo colapso parcial de uma geleira e teve intensidade suficiente para ser registrado como um evento sísmico de magnitude 5,2 pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Cientistas apontam que o derretimento acelerado das geleiras associado às mudanças climáticas aumenta o risco de inundações desse tipo.
Diante da dimensão da tragédia, surge a pergunta: a avalanche no Nepal poderia ter sido evitada? Segundo o geocientista Niels Hovius, chefe da seção de Geomorfologia do Centro Alemão de Pesquisa em Geociências (GFZ), não é possível impedir avalanches e grandes deslizamentos no Himalaia, que são fenômenos naturais recorrentes na região.
No entanto, sistemas de alertas precoces baseados em sinais sísmicos poderiam reduzir o número de vítimas ao identificar rapidamente eventos extremos e dar à população minutos, e em alguns casos dezenas de minutos, para buscar locais seguros.
Hovius estuda a região do Himalaia há mais de uma década. Segundo ele, fenômenos desse tipo são naturais e ocorrem várias vezes ao ano na cadeia montanhosa. A prevenção, portanto, não significa impedir a ocorrência da avalanche, mas detectar rapidamente suas consequências e alertar as pessoas que vivem ou trabalham nas áreas que podem ser atingidas.
Uma das possibilidades estudadas por pesquisadores é o uso de redes de sismógrafos para identificar os sinais produzidos pelo deslocamento de grandes volumes de rocha, gelo, água e sedimentos. Esses sinais podem ser detectados a quilômetros de distância da origem do evento.
A tecnologia é especialmente relevante para as chamadas inundações repentinas de lagos glaciais, conhecidas pela sigla GLOF, mas também pode ser aplicada a outros tipos de inundações catastróficas associadas a processos geomorfológicos em regiões de alta montanha.
A proposta é utilizar uma rede de estações sísmicas para monitorar grandes áreas, em vez de instalar equipamentos em cada lago ou rio considerado potencialmente perigoso.
Quando uma avalanche ou outro processo provoca o deslocamento repentino de água e sedimentos, o movimento gera ondas sísmicas. Os sensores poderiam identificar esses sinais, estimar a localização do evento e acompanhar a propagação da inundação em tempo real.
A partir dessas informações, um sistema automatizado poderia emitir alertas para comunidades, autoridades e operadores de usinas hidrelétricas localizados rio abaixo.
De acordo com Hovius, um sistema desse tipo poderia enviar o alerta com apenas alguns minutos de atraso em relação ao início do fenômeno. Esse intervalo pode ser decisivo em áreas onde a população está exposta à passagem de uma onda de água, gelo e sedimentos.
Pesquisas realizadas pelo GFZ e por instituições parceiras desde 2021 indicam que os sinais sísmicos podem ser usados para identificar grandes inundações em regiões montanhosas.
Em um estudo de um evento ocorrido em 7 de fevereiro de 2021, os pesquisadores concluíram que a rede sísmica existente na região teria permitido a emissão de um alerta precoce caso houvesse, naquele momento, um sistema capaz de processar os dados e disparar avisos automaticamente. Segundo o GFZ, seria possível ter antecipado em até 11 minutos o alerta para a localidade onde ocorreu a maior parte das mortes, em uma usina hidrelétrica em construção.
O resultado não significa, porém, que a tecnologia esteja pronta para ser utilizada de forma ampla. Os próprios pesquisadores destacam que há uma diferença importante entre demonstrar, depois de um desastre, que os sinais sísmicos estavam presentes e conseguir identificá-los em tempo real, com precisão suficiente para emitir um alerta confiável.
Um dos principais obstáculos é a infraestrutura. As redes de sismômetros existentes foram desenvolvidas principalmente para estudar terremotos e outros fenômenos do interior da Terra. Em muitos casos, os equipamentos estão distantes demais uns dos outros ou sujeitos a níveis de ruído que dificultam a identificação precisa de processos que acontecem na superfície.
Também seria necessário instalar estações autônomas capazes de transmitir dados continuamente. Em áreas remotas do Himalaia, pesquisadores avaliam o uso de comunicação por satélite para reduzir a dependência das redes de telefonia e evitar interrupções provocadas por terremotos ou outros desastres.
Outro desafio é automatizar a interpretação dos sinais. O sistema precisaria distinguir uma inundação extrema de outras fontes de vibração e, em seguida, determinar rapidamente sua localização e trajetória.
Para isso, os pesquisadores pretendem utilizar bancos de dados com eventos históricos e algoritmos de inteligência artificial capazes de reconhecer diferentes padrões sísmicos.
Mesmo que a tecnologia consiga detectar uma avalanche ou inundação rapidamente, ainda existe um último obstáculo: fazer o aviso chegar às pessoas a tempo e mobilizá-las para deixar as áreas de risco.
Esse é conhecido como o problema da "última milha" dos sistemas de alerta precoce. No Himalaia, ele é particularmente complexo porque os rios atravessam fronteiras nacionais e as comunidades estão espalhadas por regiões remotas.
Além da tecnologia, seria necessária cooperação entre diferentes países, autoridades locais, comunidades e operadores de infraestrutura, como usinas hidrelétricas.
Assim, uma avalanche no Nepal não poderia necessariamente ter sido evitada, mas um sistema de alerta precoce poderia, dependendo das características do evento e da localização das pessoas em risco, oferecer um intervalo precioso para a evacuação. A proposta dos pesquisadores é justamente transformar os sinais sísmicos produzidos por esses fenômenos naturais em uma espécie de "alarme" capaz de antecipar suas consequências.