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Ataques russos frustram paz de Trump na Ucrânia

A retomada da iniciativa de paz dos Estados Unidos na Ucrânia produziu, nos últimos dias, mais sinais sobre suas chances reais do que a retórica otimista que a acompanha. Na quarta-feira (9), o presidente Donald Trump disse a repórteres que o presidente russo, Vladimir Putin, "quer fazer um acordo", e que se o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, "quiser fazer um acordo, seria muito bom". A realidade da Europa Oriental seguiu em direção oposta.

A nova tentativa de paz de Trump na Ucrânia foi frustrada por ataques russos que encerraram uma pausa de três dias na ofensiva e mataram cinco pessoas. Um drone russo a jato violou o espaço aéreo da Moldávia e atrasou a decolagem do avião que levaria Zelensky à Noruega. Os enviados Jared Kushner e Steve Witkoff deixaram Kiev após uma visita que se seguiu a uma viagem a Moscou.

O incidente na Moldávia não pareceu representar ameaça direta a Zelensky, mas o embaixador do país nos EUA, Vladislav Kulminski, disse ao jornalista Jim Sciutto, da CNN, que a incursão de um drone de vigilância russo provavelmente "não foi um acidente". Os ataques a Kiev, na terça-feira (8), foram o episódio mais recente de uma sequência de violência contra civis. Segundo reportagem da CNN publicada na terça, a guerra custa à Rússia cerca de 40 mil soldados por mês, com base em avaliações de agências de inteligência ocidentais.

O conflito também sinaliza uma tendência de expansão para além das fronteiras ucranianas, em meio ao temor crescente de um confronto entre a OTAN e a Rússia na Europa. Para críticos do presidente americano, suas afirmações de ter encerrado múltiplas guerras são exageradas, mas uma paz justa na Ucrânia seria uma conquista monumental. Os sinais públicos das reuniões dos enviados com Putin e Zelensky, porém, oferecem pouca esperança de que os fatores que prolongaram a guerra por mais de quatro anos tenham se amenizado.

Em Moscou, os comentários elogiosos de Witkoff sobre Putin, incluindo a afirmação de que os encontros seriam uma lembrança marcante para a aposentadoria, chamaram atenção diante do ataque implacável do líder russo aos ucranianos e dos alertas de aliados dos EUA sobre operações de sabotagem encobertas do Kremlin. Kushner falou depois sobre a necessidade de uma situação de "ganha-ganha" para Putin e Zelensky. Putin reafirmou que as "causas profundas" do conflito ainda precisam ser tratadas, forma usada pela Rússia para defender o fim da soberania ucraniana e sua desmilitarização, além de reivindicar territórios nas províncias orientais que suas tropas ainda não conquistaram.

"O empecilho são duas pessoas que se odeiam", disse Trump a repórteres na Base Aérea de Andrews, em referência a Putin e Zelensky. "Eu entendo de negócios, e essas são duas pessoas cansadas de lutar. Pode acontecer", afirmou. A declaração ignorou os fatores políticos e históricos citados pelo líder russo ao lançar a guerra.

Na quarta-feira, o secretário de Estado Marco Rubio disse a repórteres na Colômbia que havia chance, nas próximas semanas, de "talvez chegar a uma conclusão que seja aceitável para ambos os lados", mas admitiu que ainda havia muito trabalho. Há também dúvidas sobre as motivações dos EUA, em meio à falta de transparência sobre as reuniões com Putin, realizadas em contexto marcado por intriga em torno de uma recente visita à Rússia do diretor da CIA, John Ratcliffe. Vazamentos sugeriram que o chefe da inteligência americana alertou Moscou de que a guerra ia mal para a Rússia e que nem pensasse em avançar sobre território da OTAN.

A sensação de que os EUA são um mediador honesto foi abalada quando o secretário do Tesouro, Scott Bessent, atribuiu parcialmente os ataques da Ucrânia à infraestrutura russa, ao lado da guerra no Irã, como causa dos altos preços do petróleo. A fala reforçou a impressão de que Washington enxerga a autodefesa ucraniana como incômodo, e não como direito legítimo. Enquanto isso, a Rússia enviou sinais sobre futuras oportunidades econômicas entre os dois países, renovando temores na Europa de que Trump esteja mais interessado em acordos, talvez ligados a recursos minerais e naturais russos, do que em uma paz justa.

Um esforço genuíno de paz é urgentemente necessário, e a primeira visita de Kushner e Witkoff a Kiev durante a guerra gerou declarações favoráveis do governo de Zelensky. Mas há um padrão na diplomacia de Trump: após consultas com Putin, Washington tende a apresentar proposta que reflete fortemente os objetivos russos; quando Zelensky recua, a administração demonstra frustração, e versões enfraquecidas do plano tornam-se inaceitáveis para o Kremlin. Enquanto isso não mudar, as esperanças em uma nova iniciativa dos EUA devem permanecer contidas.

Marília Stefani
Repórter de Segurança Pública
De Betim, cobre segurança pública em MG com dado, contexto e cuidado para não alimentar o pânico.
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