Aldir Blanc 80 anos: letrista afiado que cortou o Brasil
Aldir Blanc, que faria 80 anos hoje, 2 de setembro, deixou obra que expôs o Brasil em versos cortantes. Parceiro de João Bosco e Guinga, o letrista carioca morreu em 2020, vítima da covid-19, mas segue vivo na memória musical.
O compositor e poeta carioca Aldir Blanc Mendes (2 de setembro de 1946 - 4 de maio de 2020) faria 80 anos hoje, quarta-feira, 2 de setembro. Um dos 716.238 brasileiros mortos em decorrência da pandemia de covid-19, segundo estatísticas oficiais, ele deixou uma obra que o eternizou na música brasileira. A data convida a revisitar um legado que, como diz o crítico Mauro Ferreira, "enfiou a navalha na carne do Brasil" com versos imagéticos.
Aldir construiu sua carreira como letrista ao lado de parceiros fundamentais: João Bosco, Guinga e Moacyr Luz. Sua escrita, marcada por sintaxe própria, misturava lirismo e consciência social. "Nação" (1982), parceria com Bosco e Paulo Emilio, apresentada por Clara Nunes, é exemplo de um samba anti-exaltação do país. Já "Gol anulado" (1976) retrata violência doméstica em dia de jogo, e "De frente pro crime" (1974) expôs a violência cotidiana do Rio de Janeiro.
A parceria com João Bosco, iniciada em 1969, ganhou força a partir de 1972, quando Elis Regina se tornou a grande intérprete da dupla. Juntos, compuseram "O bêbado e a equilibrista" (1979), hino da abertura política, e "Tiro de misericórdia" (1977), que prenunciou a violência nas comunidades. Após o fim da dupla nos anos 1980, Aldir firmou parceria com Moacyr Luz e, depois, com Guinga, com quem criou obras sofisticadas nos anos 1990, como o repertório do álbum "Catavento e girassol" (1996), dedicado por Leila Pinheiro.
Médico que abandonou a profissão após a morte das filhas gêmeas em 1974, Aldir tornou-se recluso, mas nunca parou de criar. Em 2019, um ano antes de morrer, iniciou parceria com o sambista Douglas Germano em "Valhacouto". Salgueirense boêmio, radiografou o Rio e o Brasil com poesia crua. Sua obra, agora octogenária, segue viva, como resposta ao tempo. melhores sambas de Aldir Blanc parcerias históricas da MPB