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A vida em rascunho: por que a versão final nunca chega

Talvez a vida nunca chegue à versão final. Enquanto esperamos o momento certo, o tempo passa e aquilo que poderia ter sido vivido fica guardado como um rascunho que nunca ganhou coragem para existir. Foi isso que o escritor Enrico percebeu ao abrir, sem querer, uma pasta antiga chamada "ideias" no computador, enquanto procurava um documento qualquer.

A vida em rascunho é a sensação de se apresentar ao mundo como esboço, pedindo desculpas antecipadas, avisando que ainda não se é a edição revisada. Dentro da pasta, um cemitério organizado em ordem alfabética: conto do ônibus AGORA VAI, começo bom não perder, ideia boa madrugada, este último contendo uma única linha que diz "ele volta para buscar o relógio", e o autor jura que não faz ideia de quem é ele, que relógio é esse, nem por que em 2017 isso pareceu importante o suficiente para levantar da cama.

São dezenas de rascunhos: textos com três parágrafos ótimos e nenhum quarto, contos que param exatamente na hora em que seria preciso decidir alguma coisa, e as versões, crônica v2 revisada FINAL definitiva convivendo na mesma pasta com crônica v2 revisada FINAL definitiva MESMO. Cada arquivo desses foi, no dia em que nasceu, uma promessa. O incômodo veio quando o autor percebeu que não faz isso só com texto: a conversa importante que vai ser quando a poeira baixar, o projeto que vai sair do papel quando sobrar um dinheiro, o hábito que começa segunda-feira, essa segunda-feira mítica que funciona como lixeira de intenções.

A versão final de si mesmo está sempre agendada para um futuro em que as condições vão colaborar: mais tempo, mais calma, menos boleto. Só que as condições não colaboram nunca. Essa é a notícia que ninguém deu ao autor aos vinte anos e que ele entrega de graça: a poeira não baixa, o tempo não sobra, a segunda-feira chega cheia dos mesmos problemas da sexta. Esperar a versão final é um jeito elegante de não publicar nunca, e rascunho engavetado não toca ninguém. Aquele conto do relógio pode até ser ruim, mas na gaveta ele nem essa chance tem. O texto imperfeito publicado conversa, erra, encontra um leitor. O perfeito inédito só acumula poeira digital e culpa.

Então fica o comunicado oficial do autor: decidiu publicar a vida como ela está, com erro de digitação, com quarto parágrafo faltando, com versões conflitantes de si mesmo na mesma pasta. Esta coluna que você acabou de ler, aliás, é exatamente isso: um rascunho que criou coragem. Se você encontrar erros, finja elegância. O autor está em revisão permanente, e desconfia, cada vez com menos medo, de que todo mundo está. reflexões sobre tempo e produtividade

Geraldo Assunção
Repórter de Política Estadual
Repórter de BH, cobre política mineira da Assembleia ao interior com fontes antigas e ceticismo de veterano.
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