# Ricardo Aleixo entrevista Ademir Assunção: versos e crítica

> Ricardo Aleixo entrevista Ademir Assunção em prosa sobre versos, abordando os 65 anos do poeta, o novo livro e a poesia como necessidade vital. Ademir Assunção discute a criação poética e a crítica literária, revelando a importância da escrita para a existência. A conversa explora a trajetória do autor e a função da poesia na vida contemporânea.

*Portal Notícias MG · Comunidade · 01 de agosto de 2026 · Sérgio Tadeu Mafra*

Ricardo Aleixo entrevista Ademir Assunção em prosa sobre versos. O poeta fala dos 65 anos, do novo livro e da poesia como necessidade vital. Leia a conversa.

## Em uma prosa sobre versos, Ricardo Aleixo entrevista Ademir Assunção

Ricardo Aleixo, em texto especial para o Estado de Minas, entrevista Ademir Assunção. A conversa percorre a trajetória do poeta, que acaba de completar 65 anos, e o lançamento do novo livro, O jogo de xadrez e outros poemas. A poesia aparece como necessidade vital, não como escolha confortável.

## O que move um poeta aos 65 anos? A resposta de Ademir Assunção

Ademir Assunção define a poesia como uma necessidade vital. Desde os 16 anos, quando tomou consciência de poetas como Robert Frost, Serguei Iessienin, Oswald de Andrade e Cruz e Sousa, a poesia entrou na vida dele para ficar. Todos os dias, ele anota, rabisca, escreve, oraliza um poema ou desenvolve uma resenha. A palavra, matéria barata e essencial, é o centro do seu trabalho.

Não organizei toda a minha vida em torno da ideia de ficar rico, mas de me tornar um poeta, diz. Tudo o que fez e faz vai nessa direção. Não é algo fácil. Ao longo dos anos, apresentam-se as necessidades de sobrevivência, e são raríssimos os que conseguem ganhar a vida com a poesia. Praticamente ninguém.

A referência a Paulo Leminski ajuda a entender o ponto. Ser poeta aos 17 anos é fácil, dizia Leminski. Difícil é continuar acreditando em poesia aos 22, aos 25, aos 28, aos 32, aos 35, aos 40, aos 45, aos 50, aos 60 anos. Ademir concorda: continuar se dedicando à poesia ao longo de décadas é uma espécie de loucura. Uma loucura que, para alguns, significa o próprio sentido das suas vidas.

## O novo livro: pessimismo ou retrato da realidade?

O jogo de xadrez e outros poemas chega em um momento de pouco apreço pela palavra poética. Ademir não esconde o descontentamento com a sociedade atual. Significa que não estou gostando da violência, da falsidade e da burrice da sociedade em que estamos vivendo, afirma. Por isso, procurou radicalizar ainda mais a visão crítica e os procedimentos estilísticos já presentes em A Voz do Ventríloquo (2012), Pig Brother (2015) e Risca Faca (2021).

Os poemas são distópicos, são marcados pelo pessimismo? Pode ser. Mas Ademir inverte a pergunta. Quando olho para o céu numa noite estrelada, vejo a vida como algo mágico, misterioso, fascinante. Porém, os que se acham donos do mundo, banqueiros, especuladores, empresários bilionários, e os fantoches a serviço deles, em vez de olharem para o céu, só olham para o dinheiro. Onde vemos uma praia paradisíaca, eles enxergam um espaço ocioso pronto para se tornar um resort de luxo.

A crítica se estende à máquina de convencimento. Injetando fortunas em publicidade, diz, conseguem criar uma engrenagem massacrante, diante da qual nos sentimos cada vez mais impotentes, deprimidos, doentes e isolados. Ele observa que hoje são poucos os que querem mudar o mundo, algo comum entre os jovens de três ou quatro décadas atrás. Hoje, quase todos só querem ficar ricos.

A estupidez predatória, na visão do poeta, está levando rapidamente ao risco de extinção da espécie humana. Isso é real, é palpável. Ele cita o exemplo de um doente de pedra que gasta oceanos de dinheiro com a ideia fixa de criar colônias humanas em outro planeta antes da hecatombe climática, econômica ou nuclear, e é visto como visionário. Então, eu escrevo contra essa insanidade toda. Não são meus poemas que são distópicos. Distópicos são esses caras que estão nos levando para o buraco.

## O processo de escrita: do encantamento à provocação

Perguntado sobre como escreve, Ademir responde que parte de tudo isso e do encantamento que tem pela linguagem. A palavra pode ser usada para mentir, enganar, manipular, iludir, mas também para encantar, fascinar, despertar a consciência, pessoal e coletiva. E também para perturbar, provocar tumulto, modificar o ambiente social.

Ele cita um verso de Allen Ginsberg, I saw the best minds of my generation destroyed by madness, como exemplo de força. A sonoridade e o sentido de um único verso surgem no mundo como um terremoto, algo que altera a paisagem depois de sua passagem. Sabemos muito bem a força que um conjunto de palavras bem arranjadas pode provocar nos falantes de uma língua.

É por isso que a maquinaria da estupidez se esmera em rebaixar o repertório coletivo, isolando os espíritos mais inquietos. A poesia, nesse contexto, vira resistência.

## A amizade de três décadas entre Ricardo Aleixo e Ademir Assunção

Ricardo Aleixo conta que, sempre que a poesia brasileira dá sinais de estagnação, lembra de Ademir Assunção e da sua lírica incômoda, difícil, intratável, farpada. Troca com ele uma meia dúzia de mensagens, faz uma chamada de vídeo ou apenas abre um dos livros. E tudo, se não melhora, já não parece tão sem sentido quanto antes.

Ademir é um dos raros amigos poetas que Aleixo tem na conta de um verdadeiro interlocutor. Com ele e com a poesia dele, não tem conversinha instagramável. Ou é tudo ou nada, frase de Hélio Oiticica que poderia ter sido cunhada por Ademir, que tem um verso que diz que raiva é energia.

Às vezes, Aleixo puxa conversa só para entender o que ele mesmo está pensando sobre o sombrio tempo dito presente. A entrevista abaixo resgata conversas de quase trinta anos, quando começaram a trocar livros, palavras de incentivo mútuo e a partilha da crença no remédio/veneno a que chamamos poesia.

## Poesia como ofício: a realidade de quem vive da palavra

Ademir Assunção é direto sobre a vida de poeta. Ao longo dos anos, vão se apresentando as necessidades de sobrevivência, e são raríssimos os que conseguem ganhar a vida com a poesia. Praticamente ninguém. Ou você se torna um traficante de armas, como Rimbaud, ou um diplomata, como João Cabral, ou vive na pindaíba, como aconteceu com Roberto Piva em seus últimos anos.

Nesse sentido, compreende as palavras de Leminski: ser poeta quando você não precisa pensar na própria sobrevivência é moleza. Mas continuar se dedicando à poesia ao longo de décadas é uma espécie de loucura. Uma loucura que, para alguns, significa o próprio sentido das suas vidas.

Para o leitor comum, fica a lição: a poesia não é um passatempo, é uma decisão de vida. E quem decide por ela, como Ademir, aceita o risco.

## O que esperar dos próximos passos de Ademir Assunção

O novo livro, O jogo de xadrez e outros poemas, chega como resposta ao momento. Os poemas são distópicos, marcados pelo pessimismo? Pode ser, admite o poeta. Mas a leitura que ele propõe é outra: a distopia está no mundo, não nos versos.

A tendência, pelos relatos da entrevista, é de manutenção da radicalidade. Ademir segue escrevendo contra a insanidade, com a palavra como ferramenta de encantamento e de perturbação. O ofício não muda. O que muda é o alvo da crítica.

## Perguntas Frequentes

### Quem entrevista Ademir Assunção no texto do Estado de Minas?

Ricardo Aleixo, poeta mineiro, assina a entrevista especial para o Estado de Minas. O texto circula como uma prosa sobre versos, em que Aleixo conversa com o amigo sobre poesia e vida.

### Qual é o novo livro de Ademir Assunção?

O novo livro se chama O jogo de xadrez e outros poemas. Na entrevista, Ademir comenta que a obra radicaliza a visão crítica já presente em A Voz do Ventríloquo (2012), Pig Brother (2015) e Risca Faca (2021).

### Por que Ademir Assunção diz que a poesia é uma necessidade vital?

Porque desde os 16 anos ele convive com a palavra diariamente. Para ele, a poesia não é escolha, é ofício. Todos os dias ele anota, escreve, oraliza poemas e lê, mesmo sabendo que quase ninguém vive de poesia.

### O que significa a frase raiva é energia, citada na entrevista?

É um verso de Ademir Assunção, citado por Ricardo Aleixo. A frase resume a poética do autor: a raiva vira matéria de criação, energia para escrever contra a estupidez do mundo.

### Como Ademir Assunção vê o pessimismo no novo livro?

Ele não nega o pessimismo, mas inverte a acusação. Para o poeta, distópicos são os que estão levando a sociedade para o buraco, não os seus poemas. A palavra serve para encantar e para perturbar.

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