A régua emprestada: por que nos medimos pelo outro
A gente se compara com todo mundo, usando uma régua que ninguém pediu, e depois reclama que a própria vida parece curta. É o que escreve o colunista Enrico em 'A régua emprestada', texto publicado no Jornal das Montanhas. No relato, ele conta que se pegou, tarde da noite, no celular, comparando seus números de seguidores com os de um colunista quinze anos mais novo.
A régua emprestada é essa medida invisível que carregamos para medir a própria vida contra a dos outros. Ela não foi fabricada por nós: vem de comentário de parente, capa de revista e algoritmo. Mede seguidor, curtida, cargo e a idade em que cada conquista deveria ter acontecido. O autor observa que nem lembra de ter assinado o recebimento dessa régua.
De onde vem a régua que mede a nossa vida
O colunista reflete que, se a régua fosse dele, mediria coisas que valoriza de verdade: quantas tardes de sofá com os cachorros, quantos jantares bons, quantos textos que fizeram alguém chorar de reconhecimento. Mas não é isso que ela mede. A régua tem origem coletiva, montada por pressões externas que se acumulam sem que a gente perceba.
Ele conta que riu sozinho no escuro ao perceber o que fazia. Não era sobre o rapaz, que nem sabe que existe um senhor no interior o auditando de madrugada. Era sobre a régua. O quarentão contando seguidores do mais jovem como quem confere o troco do padeiro, desconfiado de que a vida tinha lhe passado a perna em algum caixa.
Todo mundo carrega uma régua igual
O autor observa que o colunista jovem que ele auditava provavelmente se compara com alguém maior, que por sua vez se compara com outro maior ainda. É uma escadaria infinita onde ninguém chega ao topo, porque o topo é uma mentira de perspectiva. Estamos todos medindo a própria vida com a fita métrica do vizinho e estranhando que o resultado nunca bate.
Ele é honesto: não jogou a régua fora, porque isso seria a versão instagramável da história. A régua continua com ele. Mas agora, quando ela aparece medindo o que não devia, ele consegue perguntar: de quem é essa marca? Quem decidiu que essa é a medida do suficiente? Na maioria das vezes, a resposta é: não fui eu. E só essa pergunta já encurta a régua uns bons centímetros.
Quem quiser acompanhar a coluna completa pode acessar o site do Jornal das Montanhas. coluna escritor enrico