# O que os quatro cachorros sabem que eu não sei

> Enrico, escritor e dono de quatro cachorros, observa que os animais esperam a comida na mesma hora diária sem demonstrar ansiedade ou apego ao passado. A crônica de Enrico contrasta a conduta canina com a tendência humana de remoer experiências antigas. O comportamento dos cachorros revela uma lição prática sobre viver o momento presente, sem carregar o peso de eventos já ocorridos.

*Portal Notícias MG · Comunidade · 10 de setembro de 2026 · Inácio Bicalho*

Os quatro cachorros do escritor Enrico esperam a comida na mesma hora, sem ansiedade. Uma crônica sobre viver o presente e não carregar o passado.

O escritor Enrico, colunista do Jornal das Montanhas, conta que os quatro cachorros dele parecem entender algo que ele ainda está aprendendo: o passado não precisa entrar pela porta junto com a gente. Todo santo dia, na mesma hora, os quatro se organizam na porta para esperar a comida. Não adianta ele estar atrasado ou discutindo comigo mesmo algum problema. Eles estão ali, sentados, com uma expectativa inteira, simples.

Nenhum deles carrega a discussão de ontem. Nenhum antecipa a de amanhã. Existe só a fome de agora, a porta de agora, a alegria de agora. Enrico diz que inveja essa economia emocional deles. Enquanto ele leva a mesma mágoa por semanas, remoendo em ângulos diferentes, os cachorros brigam, rosnam feio por um brinquedo e, cinco minutos depois, estão deitados encostados, como se o rosnado tivesse acontecido numa vida anterior. Não é que esqueçam por burrice. É que não carregam o passado como peso, só como aprendizado rápido.

Tem uma cena que se repete: Enrico chega cansado, de mau humor, arrastando um dia ruim pela casa, e algum deles vem esfregar a cabeça na perna dele, sem motivo lógico, sem retribuição esperada. Não é estratégia, não é cálculo. É presença pura.

Confesso que já tentei imitar, escreve. Já tentei chegar em casa e decidir, na marra, que o dia ruim ia ficar do lado de fora do portão. Funciona umas vezes. Na maioria, carrego o dia inteiro para dentro de casa, converso com ele até tarde, e só de madrugada, olhando para algum deles roncando tranquilo aos meus pés, lembro que existe outro jeito de viver um dia difícil.

Enrico não sabe se um dia vai aprender de vez o que eles sabem sem esforço. Mas toda vez que um deles esquece uma briga em cinco minutos, ou espera a comida sem ansiedade sobre o futuro, ele anota mentalmente que ali, naquele focinho descansando no colo, existe uma aula que ainda não terminou de fazer.

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