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Novo mapa-múndi é importante para a percepção global

A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, nesta sexta-feira (4), uma resolução que adota um novo mapa-múndi com o objetivo de representar com maior precisão o tamanho relativo dos países. A mudança atende a uma reivindicação histórica de nações africanas, que pediram à ONU a correção de distorções presentes na cartografia tradicional.

O novo mapa-múndi é importante para a percepção global, diz a geógrafa e professora titular da USP Ligia Vizeu Barrozo. O mapa até então amplamente utilizado é baseado na projeção de Mercator, desenvolvida em 1569 e adotada originalmente para fins de navegação. Segundo a especialista, essa projeção foi criada para resolver um problema muito específico da época.

"O objetivo era preservar os ângulos de forma que não se perdesse a rota correta para se chegar de um lugar a outro", explicou. "Não havia preocupação com essa representação cartográfica do ponto de vista de manter a proporção das áreas."

A especialista destacou a importância da mudança para a educação e para a percepção global. "A gente vai educar as pessoas a entenderem o tamanho e a importância da África e também do próprio continente sul-americano", afirmou Ligia Vizeu Barrozo.

Uma das distorções mais evidentes do mapa de Mercator diz respeito à comparação entre o tamanho da Groenlândia e o do continente africano. No mapa antigo, a Groenlândia aparece com dimensões desproporcionalmente maiores do que as reais, enquanto a África e a América do Sul são representadas de forma reduzida.

Ligia Vizeu Barrozo explicou que isso ocorre porque, "à medida que a gente vai indo para as altas latitudes, tanto em direção aos polos, acontece uma deformação maior". No novo mapa aprovado pela ONU, a Groenlândia aparece significativamente menor, ao passo que o continente africano e a América do Sul ganham representações mais fiéis à sua extensão real.

Para a especialista, a questão vai além da precisão técnica e envolve também uma dimensão política e cognitiva. "O que a África reivindicava era uma questão de justiça cartográfica, justiça cognitiva, porque as pessoas, quando olham para o mapa da projeção de Mercator, têm uma ideia de que a Groenlândia e as terras emersas que estão mais próximas do polo, principalmente no hemisfério norte, são muito maiores do que o sul global", afirmou.

Ligia Vizeu Barrozo ressaltou ainda que "nenhum mapa é neutro" e que "todo mapa tem a sua escolha, construída a partir de concepções históricas". A adoção do novo mapa-múndi não significa o abandono completo da projeção de Mercator. De acordo com a especialista, essa projeção continuará sendo utilizada em escalas de detalhes, como em aplicativos de navegação, a exemplo do Google Maps e do Waze.

No entanto, para fins institucionais, educacionais e políticos, como as representações que a ONU utiliza para mapear epidemias, tamanho de populações e emissões de carbono, o novo mapa, que preserva as áreas de forma equivalente, será adotado.

Inácio Bicalho
Repórter de Interior e Agro
Do Norte de Minas, cobre o sertão mineiro, a seca, o pequeno produtor e as pautas que a capital ignora.
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