O nebuloso enredo que financiou o Dark Horse
O filme Dark Horse, sobre a biografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), virou epicentro de uma investigação que mistura pedido de financiamento milionário, delação premiada e operação da Polícia Federal. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, teria pedido ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro US$ 24 milhões, o equivalente a R$ 134 milhões, para custear a produção. Flávio negou irregularidade e tratava o assunto como "página virada".
A trama ganhou novo capítulo com a delação de Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, dono da Entre Investimentos e Participações e apontado como principal operador financeiro de Vorcaro. O acordo foi homologado pelo relator André Mendonça. Segundo a jornalista Malu Gaspar, Mineiro afirmou que fez, a pedido de Vorcaro, sete pagamentos ao fundo Havengate, com sede nos Estados Unidos e ligação com um advogado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Os repasses somaram US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 69 milhões.
O banqueiro está preso desde novembro de 2025, suspeito de fraudar R$ 12 bilhões do sistema financeiro e de envolver autoridades da República em todos os Poderes. O caso voltou ao noticiário após o deputado Nikolas Ferreira (PL) criticar publicamente o colega Mário Frias (PL-SP), roteirista e produtor executivo do filme, por falta de informações sobre os recursos e sua aplicação. Em entrevista na terça, 8, ao Show do Baccio, da BNTV, Nikolas cobrou esclarecimentos.
Frias reagiu pelo X e acusou Nikolas de criar "cortina de fumaça" para desviar o foco de mensagens divulgadas na quinta, 3, em que o deputado tenta aproximação com Vorcaro e pede ajuda ao advogado e ex-assessor Thiago Rodrigues de Faria na liberação de um ativo mineral. Frias disse que a produção já prestou esclarecimentos às autoridades e contratou perícia independente para analisar as contas.
Na quinta-feira, o ministro Flávio Dino determinou à Polícia Federal a Operação Make Up, que investiga suspeitas de desvio de recursos públicos de emendas parlamentares. Dino é relator no STF dos processos sobre irregularidades na destinação dessas emendas. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão em endereços dos investigados, entre eles Mário Frias.
Segundo a PF, emendas propostas por Frias, no valor de R$ 2 milhões, teriam sido destinadas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB) e à Academia Nacional de Cultura, presididos pela empresária Karina Ferreira da Gama. Os recursos teriam sido desviados para a Go Up Entertainment Ltda., empresa responsável pelo filme, da qual Karina é sócia. Os valores teriam quitado despesas com a produtora, restaurantes e hotéis de alto padrão durante as gravações em São Paulo, entre 20 de outubro e 7 de dezembro de 2025. A PF destacou a coincidência entre o período das gravações e as despesas identificadas.
Karina participou da campanha eleitoral de Frias em 2022 e segue próxima ao parlamentar, aponta a PF. A corporação informou ainda que o próprio Frias teria encaminhado R$ 645 mil à Go Up em um intervalo de 60 dias, valor que seria incompatível com seus rendimentos mensais.