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Medo de ficar sozinho: por que a própria companhia dói

Quando foi a última vez que você ficou sozinho sem pegar o celular, ligar a televisão ou pedir música à Alexa só para preencher o silêncio? Para parte das pessoas, estar só provoca desconforto, ansiedade e até medo. Em uma sociedade conectada, a solidão costuma ser disfarçada pelo excesso de estímulos e contatos virtuais.

A dificuldade de estar só passa pela necessidade humana de criar vínculos, segundo a psicóloga Andrea Aguiar, especialista em terapia cognitivo-comportamental e terapia do esquema. "Nós somos seres de vínculo. A gente precisa de pessoas, precisa de amigos, precisa de relações", afirma. A ideia de que nascemos e morremos sozinhos é, para ela, racional demais para explicar o comportamento humano: "Nós não somos seres racionais, nós somos seres emocionais que pensamos".

O que mudou no olhar sobre a solidão

O ponto central da leitura de Andrea é que aprender a estar sozinho não significa abrir mão das relações. Significa construir autonomia sem deixar de buscar conexões. O problema aparece quando o medo da solidão se transforma em motivo para permanecer em relações que fazem mal.

Relações saudáveis oferecem validação e crescimento, diz a psicóloga. As tóxicas se marcam por invalidação, crítica, abuso e maus-tratos. "Nas relações abusivas eu me perco de mim", resume. Ficar com alguém por dependência emocional, segundo ela, é algo que acontece com frequência, mas é patológico. "Se tem alguém que se reconhece numa relação de dependência, precisa buscar ajuda. Porque, sozinha, é muito difícil sair", ressalta.

As redes sociais entram nesse quadro como fuga. Andrea diferencia estar conectado de estabelecer vínculo de verdade. "Conexão é vínculo. Então, lá no fundo, o que a gente está é preenchendo o vazio, ficando nas redes sociais, rolando o feed para não olhar para dentro, porque olhar para dentro dói demais", afirma. Reconhecer a própria solidão, ainda que doloroso, pode ser o primeiro passo: "Admitir essa solidão dói, mas é o que nos liberta".

Formas menos óbvias do mesmo medo

O medo aparece também em comportamentos que passam despercebidos. Há quem permaneça indefinidamente em aplicativos de relacionamento, acumulando conversas e matches sem chegar ao encontro presencial. Andrea cita o caso de uma paciente que passou um ano esperando um homem que conheceu no Tinder. Ele prometia encontrá-la e inventava desculpas na hora. A mulher chegou a acreditar que não era interessante o suficiente. Depois, descobriu que o mesmo havia acontecido com outras mulheres.

Para a psicóloga, por trás disso pode haver mais do que falta de interesse. "Essa pessoa está com medo. Fica no primeiro momento parecendo assim um mau-caráter. Pode até ser, mas eu acho que é mais profundo. Isso é o iceberg, a pontinha", explica.

A saída, segundo ela, pode começar por atividades coletivas. "Você gosta de jogar bola? Vai jogar vôlei, futebol, basquete, coisa coletiva", sugere. Mas há uma ressalva honesta: quando medo e tristeza se combinam, o isolamento tende a aumentar e o primeiro passo fica mais difícil. "Tristeza junto com medo é igual a isolamento social", diz. Nesse caso, a ajuda profissional costuma ser o caminho inicial.

Estar em um relacionamento não garante não se sentir sozinho. Para Andrea, uma relação saudável equilibra conexão e autonomia. "O segredo das relações é conexão com autonomia", afirma. Homens e mulheres sentem a solidão, embora as cobranças sociais sejam diferentes: sobre a mulher que está só ainda pesa um olhar depreciativo, enquanto o homem, por questão cultural, tende a esconder o sofrimento. dependência emocional saúde mental no trabalho

Sérgio Tadeu Mafra
Repórter de Economia Regional
De Uberlândia, cobre economia do Triângulo e agronegócio mineiro com dado na mão e linguagem clara.
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