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O homem que decidiu dar ouvidos ao silêncio

Edison Claro costuma contar uma história de praia para explicar o que faz da vida. Ele tem uma casa litorânea com vizinhos dos dois lados: um ama pagode, o outro é fanático por rock. Edison não suporta o primeiro estilo. Quando mede o volume dos dois sons, porém, descobre que a intensidade é praticamente idêntica. Ainda assim, um o irrita profundamente e o outro o deixa animado.

Dessa observação nasce a definição que guia toda a carreira do engenheiro à frente da Atenua Som, empresa especializada em isolamento acústico: o barulho não é uma medida objetiva de decibéis, é tudo aquilo que incomoda. A tese, cultivada ao longo de mais de 30 anos de projetos residenciais, hoteleiros e culturais, é o fio condutor do livro O Silêncio é Disputado e, antes de tudo, a lente pela qual Edison enxerga o mundo.

O silêncio, para ele, não é conforto, é necessidade fisiológica e emocional. Nos bastidores da profissão, conta ter atendido clientes com hiperacusia, condição que torna a audição intolerante a sons corriqueiros, e ouvido relatos de vizinhos que quase chegaram às vias de fato por causa de um pagode ligado até tarde. Episódios extremos como esses, que volta e meia viram manchete de crime passional, comprovam, na visão dele, algo que a engenharia tradicional ainda trata como coadjuvante.

A lei das frestas e os projetos mais espinhosos

Foi resolvendo esse tipo de conflito, esquadria por esquadria, que Edison chegou a uma constatação técnica que reivindica como criação própria. Além das duas leis clássicas da acústica arquitetônica, a lei das massas, segundo a qual mais peso significa mais isolamento, e a lei das frequências, pela qual às vezes duas paredes finas e assimétricas isolam melhor que uma parede grossa, existiria uma terceira, batizada por ele de lei das frestas. Não é uma lei da física reconhecida nos livros-texto. Descreve um fenômeno que ele diz ver se repetir em obra após obra: no Brasil, onde predominam janelas e portas de correr, a folga necessária para o deslizamento das peças costuma ser o ponto por onde todo o esforço de isolamento escapa. Uma abertura milimétrica, segundo ele, pode anular o desempenho de um vidro caríssimo.

Esse olhar para o detalhe rende à Atenua Som alguns dos desafios mais duros do mercado. Edison gosta de lembrar do condomínio a poucos metros do Allianz Parque, casa do Palmeiras, onde o som da plateia chega a 107 decibéis nos dias de show: a solução, uma reforma completa das esquadrias sem alterar a fachada original, precisou sair do papel em apenas 30 dias. Ou do Hotel Marriott próximo ao Aeroporto de Cumbica, onde a diretoria só topou pagar o valor mais alto entre os concorrentes depois que a equipe propôs um teste direto: dormir uma noite no quarto com a janela instalada e comparar o resultado com o das outras marcas.

O projeto que ele define, sem hesitar, como o maior desafio da carreira foi o NEOJIBA, programa de orquestras juvenis da Bahia idealizado pelo maestro Ricardo Castro. Para um dos núcleos, em Salvador, sua equipe teve que produzir 49 esquadrias arqueadas capazes de isolar 50 decibéis, seguindo parâmetros da consultoria japonesa Nagata Acoustics, referência mundial em acústica de salas de concerto. O prédio, tombado pelo patrimônio histórico, impedia o uso de guindastes internos: vidros e perfis de centenas de quilos tiveram que ser erguidos manualmente. E as portas ainda precisavam ser largas o bastante para a passagem de um piano, sem perder um decibel de isolamento. "Imagine alcançar, com esquadrias, o desempenho acústico equivalente ao de uma parede", resume Edison.

Da técnica ao manifesto

Se a Atenua Som resolve os problemas um a um, o projeto de vida de Edison talvez seja outro: mudar a mentalidade de todo um setor. Há quase duas décadas ele mantém a Universidade do Som, plataforma de formação técnica da qual nasceu o Vidro Som. Foi durante uma dessas edições, em Florianópolis, que ele fez a pergunta que resume sua visão de mercado: janela tem marca? Diante do silêncio constrangido da plateia, puxou uma comparação com a indústria automobilística, que soube transformar um carro popular em produto sofisticado, com ar-condicionado, airbag e multimídia, mesmo em plena crise econômica. Por que o setor de esquadrias não seguiria o mesmo caminho, agregando vidros melhores, cores, telas e fechaduras de qualidade até criar marcas reconhecíveis?

O livro passeia por explicações sobre decibéis, curvas de ponderação e normas brasileiras de esquadrias. O que sustenta cada capítulo, porém, são as histórias colecionadas pelo caminho, inclusive as mais duras, como a de gêmeos criados na mesma casa em São José dos Campos que cresceram com estaturas visivelmente diferentes, diferença atribuída pelo pediatra da família à interrupção constante do sono de um deles por morar voltado para uma rodovia. Para Edison, relatos assim provam que o silêncio deixou de ser luxo estético para virar questão de saúde pública, tão urgente, segundo ele, quanto a água potável ou o ar limpo. Não à toa, cita como inspiração lugares como a Capela de Kamppi, em Helsinque, construção de madeira onde é proibido falar e a acústica é tão precisa que se ouve o próprio coração batendo.

"Em um mundo barulhento, quem não planeja o som, colhe o incômodo", resume Edison Claro. É a frase que fecha o livro, mas também poderia abrir qualquer conversa com ele: a certeza de que o silêncio, longe de ser efeito colateral do acaso, é algo que se constrói janela por janela, decibel por decibel.

Inácio Bicalho
Repórter de Interior e Agro
Do Norte de Minas, cobre o sertão mineiro, a seca, o pequeno produtor e as pautas que a capital ignora.
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