De que geração viemos e qual geração queremos construir?
Há poucos dias, assisti a uma entrevista do cientista político Felipe Nunes, fundador da Quaest, que me fez voltar a uma pergunta antiga: afinal, o que define uma geração? A resposta que ele propõe muda o vocabulário com que costumamos falar de idade e política no Brasil.
Nunes questiona o hábito de classificar brasileiros como baby boomers, geração X, millennials ou geração Z. Em seu trabalho, propõe uma leitura mais brasileira: a geração Bossa Nova, dos nascidos entre 1945 e 1964; Ordem e Progresso, de 1965 a 1984, marcada pela ditadura; Redemocratização, de 1985 a 1999; e a Geração.com, nascida a partir de 2000, já formada em um mundo conectado pela internet e em um Brasil profundamente diferente.
Mais do que os nomes ou as datas, interessa a ideia: somos também resultado do tempo em que fomos formados.
Em abril do ano passado, escrevi aqui sobre outra maneira de pensar a palavra geração, a partir de um texto de Augusto de Franco. Para ele, pertencer a uma nova geração não depende apenas da idade, mas da capacidade de gerar o novo. Uma pessoa mais velha pode continuar aprendendo, revendo ideias, criando e participando das transformações do presente. E uma pessoa jovem pode apenas repetir velhas certezas.
As duas ideias se encontram num ponto importante: o passado ajuda a explicar quem somos, mas não precisa determinar aquilo que vamos construir. E talvez essa reflexão faça ainda mais sentido agora, a poucas semanas das eleições.
Em pleno século XXI, porém, parte do debate político ainda parece ocupada demais com disputas, costumes e ressentimentos herdados do século passado. Não se trata de esquecer a história, mas de perceber que o futuro já colocou outros desafios diante de nós: inteligência artificial, transformação do trabalho, mudanças climáticas, educação, desigualdade e o desafio de uma população que envelhece. Não dá para construir esse futuro olhando apenas pelo retrovisor.
É esse futuro que estará, de alguma maneira, dentro do nosso voto. Por isso, antes de apertar o confirma, talvez valha fazer uma pergunta: não escolhemos a geração em que nascemos, mas podemos escolher a geração que ajudaremos a criar.
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